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Conto

As Janelas de Coyocán

October/2024

Paulo Carbonera

Esperava por eles desde a última visita do meu grande amigo brasileiro, o Leme. Grande homem. iluminista, presidente da União Espírita do Brasil e, como nada é perfeito, maçom. Ele queria minha ajuda com sua afilhada e iria dar um jeito dela passar por aqui com seu marido, antes de seguirem viagem para fazer o sonho americano. Depois de anos perambulando por entre essas velhas paredes azul-turquesa é sempre auspicioso receber gente de verdade.

Hoje, na tranquilidade da minha sala, observando as grandes janelas da Casa Azul, janelas que deixam correr muito mais do que vento e claridão, um pintassilgo vermelho de cabeça preta cruzou por uma delas, num sopro morno, e avisou-me que o jovem casal já estava no México. Deixaram suas malas no hotel e vieram direto para cá.

Leandra tinha pressa, pois sabia que tinham pouco tempo e o maridinho, bem… O Tavito, se pudesse, nem teria pisado em solo mexicano.

Os dois entraram sem sequer parar na recepção ou pegar os lindos folders do balcão de informações. Qué barbaridade, mais respeito com nossa arte, por favor. Que gabacho! É bem verdade que a esposa também nunca se interessou por Frida, contudo, fora o único pedido de seu tio, o Leme. E ela estava determinada a atendê-lo, já que toda a viagem fora integralmente custeada pelo amantíssimo tio e padrinho. Entenda que o sonho do maridinho é se mudar para os Estados Unidos e, se é dele, também é sonho dela.

Logo eles avistaram Ximena, a simpática estudante que é guia voluntária da Casa Azul. Tavito resolveu abordá-la.

— Olá, a gente quer ver as melhores obras da Frida. Onde ficam? — A jovem guia, que atendia um grupo de turistas o ignorou, o que foi bem merecido. Não é que eu não goste do rapaz, perceba, mas não acho nada certo ele largar o emprego nas lojas do Afonso e tentar a sorte em outro país. Nada certo mesmo, ainda mais com dinheiro alheio. A afilhada, no fundo, também não via isso com bons olhos. Mas, ela tem apenas 18 anos e acha que ele, com 27, sabe mais da vida do que ela.

E ele insistiu.

— Moça, por favor, é rápido. Só quero saber onde fica a obra de arte mais importante do museu. — Leandra, que estava um pouco atrás de Tavito, esgueirou-se ao seu lado e disse, com tímida delicadeza:

— Nos desculpe pelo incômodo, mas temos pouco tempo. — A voz dela foi num diminuindo, à medida que o perfume da guia insinuava-se pelas suas narinas. A guia virou o rosto e as duas beldades cruzaram o olhar. Válgame Dios! O ar entre elas pareceu vibrar com uma eletricidade tênue, como o estalo de uma faísca antes da chama.

Sou Leandra e este é Tavito, meu marido, — anunciou, recompondo-se.

— Primeiro piso, sala 15, subindo as escadas à sua direita. — disse Ximena.

— Perdão?

— A pintura em óleo "Frieda e Diego Rivera", fica exposta na Sala 15 e é a minha preferida. —Virando-se para o outro grupo e deixando o casalzinho que em seguida dirigiu-se para as escadas a passos apressados.

Vejo-me obrigado a salientar que o Diego da obra “Frieda e Diego Rivera” sou eu, este que vos fala. Preciso dizer também que essa menina, Ximena, me encanta. Ela tem 19 anos e cursa Antropologia na Universidad Nacional Autónoma de México. Tenho um carinho especial por ela – que Frida nunca saiba disso! Não pelos seus olhos grandes, de um castanho profundo, ou pela sua pele quente e dourada como o sol de Coyoacán. Não somente por isso. É porque ela é a única guia que, dentre tantos autorretratos da artista, prefere justamente o quadro no qual sou protagonista.

A essas alturas, o jovem casal já havia subido para o primeiro andar e estavam procurando pela sala indicada, quando Tavito parou.

— Preciso ir ao banheiro. A sala 15 é pra lá! Vá na minha frente que já te encontro.

Isso foi ótimo pois assim minha protegida veio sozinha até meus aposentos. Ela entrou, tímida, e passou a admirar o balcão central, que era uma antiga bancada de trabalho onde ficam expostos alguns pincéis, frascos de tintas e outros utensílios da minha mulher. Logo depois, chegou em frente a nós, digo, em frente à pintura "Frieda e Diego Rivera" e parou para nos admirar. Então, decidi que era chegada a hora.

Desci da moldura e fiz soprar uma agradável brisa perfumada que esvoaçou as cortinas das janelas e adejou os cabelos da beldade. A fragrância era a mesma do perfume de Ximena. Ela olhou para os lados e não viu ninguém, éramos só nós dois.

Claro que todo esse espetáculo faz parte do meu assombramento. Eu adoro fazer isso, embora Frida não goste e evito fazê-lo na presença dela.

Quando Leandra virou-se, enfim me viu! E empalideceu. Gritou um gritinho contido e, como uma cabrita, saltou para trás. Acabou caindo sentada, apoiando-se com a mãos no chão para não desmoronar de cabeça. Esperei alguns segundos. Ela levou as mãos ao rosto e tapou olhos. Abriu-os novamente e gritou de novo, dessa vez com mais coragem. Esperei mais um pouco enquanto ela me observava.

— Calma, criança, sou Diego Rivera, ao seu dispor, —anunciei enquanto oferecia minha mão para ajudá-la a levantar.

— Que diabos está acontecendo aqui? — Ela perguntou assustada, encolhida, hesitando em aceitar minha ajuda.

— Não se assuste, não quero lhe fazer mal, — falei devagar, com toda calma do mundo.

— Não te conheço e não faço ideia de quem seja Diego Rivera, — ela resmungou, após levantar-se sozinha.

Só pode ser uma maldição. É incrível como a maioria das pessoas, em especial os estrangeiros, me ignoram e todos os holofotes são para Frida. Não que ela não mereça, que fique registrado.

— Sou esposo de Frida Kahlo, quer dizer, fui esposo dela por duas vezes, quando éramos vivos. —Ela arregalou os olhos e ficou sem ar, por alguns instantes.

— Eu… estou morta? Meu Deus! Meu marido deve estar enlouquecido atrás de mim! — pensou em voz alta, agora quase chorando.

— Não minha filha, você não está morta não. Apenas conversa com um morto. Isso não tem nada de mais. Seu tio Afonso também fala comigo, sabia? — expliquei, tentando tranquilizá-la. — E quanto ao Tavito, não se preocupe. Ele saiu do banheiro, deparou-se com o Café Magdalena e resolveu lanchar. Nesse exato momento, se deleita comendo tacos e refresca-se com jarritos de mandarino. Daqui a pouco ele deve vir para cá.

— Como você sabe o nome do meu marido?

— Bem, como já lhe disse, sou morto. E mortos sabem de muitas coisas. Mas não todos os mortos, e nem de todas as coisas, perceba! Uma coisa que sempre me intrigou são vocês, por exemplo.

— Nós?

— É, vocês mulheres. No seu caso, sem querer ser indiscreto. Não consigo entender porque casou com esse moço. Não sinto a química certa em vocês. Não ouço os rojões, os foguetes, nada. No máximo uma bombinha de armazém.

— Eu… gosto dele, foi meu primeiro namorado.

— Gosta dele. Mas o ama com todas suas forças? —Silêncio. — E ele. Também ama você?

— Claro que sim! — retrucou ela, se afastando de mim. — Você não sabe nada da gente, sou completamente feliz com ele.

— É mesmo? — Perguntei, com muito cuidado. E continuei, devagar. — É feliz debaixo dos lençóis também?

Ela enrubesceu e baixou os olhos e pensou por alguns segundos. — Bem, essas coisas não são da sua conta. São coisas de casal e não te dei liberdade para falar disso comigo.

— É, você tem razão. Mas não pude deixar de perceber que a menina Ximena balançou você. E quer saber? O sentimento foi recíproco.

Ela corou de novo, dessa vez parecendo um pimentão. Fechou-se, mas logo baixou a guarda.

— Não fique envergonhada criança, isso acontece nas melhores famílias. — Inclusive na minha própria, pensei. — Acredite, tenho experiência nessas coisas.

— Acho que o que mexeu comigo foi o perfume que ela usava. Me deixou meio tonta. — Disse ela, levantando os olhos devagar. — Que aroma era aquele?

— Não sei — é claro que eu sabia. — Porque você não pergunta para ela?

Contudo, nesse momento, o esposo chegou e balançou Leandra pelo ombro direito, interrompendo de súbito nossa conexão.

— Amor, caramba, presta atenção!

— O que? Amor? — gritou ela, buscando um fôlego, caindo nos braços do rapaz.

— Nossa! Você não parece nada bem. Fiquei preocupado. — Mantendo-a em seus braços. — Você quase me matou de susto, menina!

— Estou bem…

Te chamei várias vezes e você não ouvia, parecia hipnotizada, estava quase beijando esse quadro. —Gracejou o jovem. — E que quadro feio! Por sinal, muito menor do que eu esperava. Bem que o motorista do Uber falou que ela é super estimada.

A menina foi voltando a si, aos poucos, percebendo que havia mais pessoas na sala e, sem pressa, foi sendo conduzida pelo rapaz.

— Vem, vamos embora pro hotel. Não temos mais o que fazer aqui.

— Certo. Vamos sim, — concordou ela. — Acho que passei mal. É como eu tivesse estonteado e depois apagado, tipo num sonho. — O cachopo não respondeu, apenas a guiava pela mão.

— No hotel, vamos pedir jarritos de mandarino, é incrível, você vai adorar. Com certeza é a melhor coisa do México! — festejou ele, logo depois.

Eu havia perdido ela. Antes de saírem da sala, porém, a mocinha ainda deu uma olhada para o quadro pendurado, mas nada viu, além da pintura. “Parecia ser tão real… Não, não. Foram coisas da minha cabeça, com certeza. Ideias tortas que devo esquecer”, pensou ela.

Desceram pelas escadas e flutuei atrás. Quando chegaram ao térreo, ela viu Ximena na porta de saída, sorriso lindo, maravilhosa, conversando com alguns amigos. De canto de olho, Leandra viu que seu affaire também a notara.

Continuaram caminhando de mãos dadas, Tavito um pouco à frente e, quando estavam próximos à porta de saída, Ximena virou-se para eles, que pararam.

— Olá, tudo bem? — perguntou ela. — Falamos há poucos minutos atrás. Estão indo cedo demais. Não querem uma guia para conhecer o resto do museu? Garanto que vão se surpreender com a história de Frida? — Leandra, aturdida, nada respondeu. “Deus do céu, de novo esse cheiro…”, pensou.

O silêncio foi traduzido como um não. Ximena já se virava em direção aos seus amigos quando soprei em sua orelha direita. Ela se arrepiou toda, ajeitou os cabelos com a mão direita e voltou-se para o casal.

— A propósito, — confidenciou, olhando apenas para a mulher, — o perfume que estou usando é o Mezquite, da Demeter.

O silencio era sólido, inabalável. — O que você disse?

— O perfume. Você não queria saber do meu perfume?

Leandra, ainda incrédula, são sabia o que fazer. Pude ver o eriçar da delicada penugem de seu pescoço. “Não é possível. Como ela poderia saber?”, pensou, ainda muda, ensaiando alguns sorrisos involuntários. Ándale pues!

— Vamos amor, estamos com pressa. Você não está passando bem, lembra? — avisou o pobre marido.

Leandra continuava sorrindo, fitando Ximena. Na verdade, ela parecia bem demais.

— Se você não vier agora, vou voltar sozinho para o hotel, — insistiu ele.

— Vai na frente, Tavito. Estou curiosa. Quero conhecer melhor a história dessa mulher.