Conto
Ecos de Carrara
January/2025
Paulo Carbonera
No escritório de sua mansão em são Paulo, o Bispo discute detalhes do projeto com o arquiteto.
— Ficará maravilhoso, senhor. Será um monumento encravado no meio do Brás. O estilo foi amplamente inspirado no Templo de Salomão, caso tenha realmente existido.
— Ele existiu de fato, meu jovem. Não duvide disso. — O bispo debruçado sobre a folha A2, aberta em sua escrivaninha de mogno, se atenta para os detalhes.
— Essa cruz enorme na fachada. Quero retirar. Deixaremos apenas as duas grandes colunas. E as artes nas paredes internas, vamos mudar também.
— Serão pinturas em óleo sobre tela, Senhor, representando a Paixão de Cristo.
— Sim, sim, mas isso é muito católico, muito datado. Vamos colocar nesses nichos laterais aqueles candelabros de sete braços, que costumam decorar sinagogas.
— Certo, senhor. Com todo respeito, sei que não sou da área, mas não acha que ficará faltando mais referências aos Evangelhos e ao próprio Cristo?
— Não, não. Hoje precisamos resgatar o simbolismo do Velho Testamento. É mais interessante para nós. Precisamos transmitir aos nossos fiéis mensagens de triunfo, vitória pessoal e prosperidade. Isso não tem no Novo testamento.
O arquiteto aquiesce.
— Estou até pensando em colocar umas enormes réplicas daquelas estátuas de Michelângelo. Pensei no Moisés, o profeta.
***
— Tem certeza que ele virá?
— Tu não vieste?
Era Verdade. Já passava das onze da noite e Michelangelo estava na basílica de San Pietro in Vincoli. Fora tragado de volta ao mundo dos vivos e, se isso não fosse estranho o bastante, agora conversava com uma estátua. Uma de suas criações, talhada no mais puro mármore de Carrara. Mas ainda assim, uma estátua.
—Tínhamos que nos encontrar na tumba lateral de uma igreja? Ainda por cima em Roma? Imaginei que se um dia fosse assombrar um lugar, seria o Uffizi da minha amada Florença, com suas galerias e salões repletos da melhor arte do mundo.
— Dobre tua língua e respeite a Casa do Senhor. Ainda sou o guardião da Lei Divina. — A face sombria de Moisés era iluminada unicamente pelas luzes bruxuleantes dos candelabros que por séculos se agarravam às paredes escuras do lugar.
— Perdão se o ofendi, mas sinto saudade da minha terra, onde nasci e morri. Podes adiantar o assunto? — Michelangelo tentava controlar seus temores. Conhecia cada centímetro daquela escultura, mas jamais a imaginara em movimento, como se de carne fosse.
— Não. Ele deve estar presente.
— Estamos em Roma. Talvez ele demore a chegar.
Moisés desceu de seu pedestal, o mármore gritava, e marchou até o banco de madeira onde estava Michelangelo. O cheiro de pedra queimada e os passos desajeitados, estridentes, não furtaram ao escritor o familiar orgulho que sempre tivera ante a beleza e perfeição daquela escultura.
— Pois bem. Quero que prestes atenção. Só falarei uma vez.
Michelangelo assentiu com um gesto.
— Fui o Líder do Êxodo, antes do Filho, eu fui o caminho para a libertação. Sou o Mediador da Lei! —Disse Moisés, solene.
— Não tenho dúvidas da importância que tens para os discípulos da fé verdadeira. — disse Michelangelo, buscando não contrariar aquele colosso de pedra.
— Vou começar pelo óbvio: apenas dois metros e trinta e cinco. Por acaso faltava mármore em Roma? — Moisés não esperou resposta. — Uma figura como eu merecia muito mais.
— Vê bem. Tu és uma escultura enorme. E beira a perfeição. Eu mesmo escolhi na pedreira o monolito em que tu foste moldado. Os detalhes de teus pés e mãos, a expressão enigmática de teu rosto fascinam teus admiradores até hoje.
— Ele tem cinco metros e quinze! — gritou Moisés, sua voz explodindo pelas frias paredes. — E todos falam da beleza e perfeição de seu corpo nu.
— Tu querias ter sido feito… nu?
— Não, claro que não! Não deverias ter feito ele nu. “Guardar castidade nas palavras e nas obras”, diz o sexto princípio, — advertiu Moisés, franzindo o cenho e mostrando uma das tábuas. — E ainda o expos em praça pública. — Finalizou, com seu semblante enrugado.
Michelangelo preferiu calar-se. Sabia que nunca coube a ele decidir onde suas obras, encomendadas e regiamente pagas, seriam expostas. Mas não convinha travar discussão ante a rigidez de Moisés, que agora punha-se me pé e andava de um lado para outro.
— Por essa e por outras é que hoje ele é muito mais famoso que eu. Uma injustiça histórica e divina. Isso que nem mencionei os chifres. — Moisés falou essa última frase virando-se e encarando seu criador. O tremeluzir avermelhado das velas refletia em seus olhos polidos.
— Todos sabem que isso se deu pela mal traduzida Vulgata, — disse Michelangelo, engolindo a voz. — Deverias cobrar São Gerônimo, pela imperícia que atravessou os séculos. Além disso, de alguma forma, eles representam os raios luminosos que tu emanas.
— Parole al vento. Quero que os remova.
Michelangelo sentia o aroma terroso e doce de cera quente, fumaça e resina invadir-lhe as narinas e pesar seus pulmões. Respirou fundo, e disparou: — Impossível. Tu és perfeito.
Eis que o outro convidado, jovem e atlético, pulou para o chão com inacreditável leveza. Ele observou Moisés com curiosidade, um meio sorriso esculpido em seus lábios.
— Olá Moisés, é bom conhecê-lo pessoalmente. Sua beleza discreta é reconhecida em Florença. — Virou-se para Michelangelo, inclinou-se em humilde reverência e, após alguns segundos, ergueu seu olhar: — É uma honra celestial encontrar-vos novamente, ó Divino.
Michelangelo, que já se via pequeno diante de Moisés, sentiu-se minúsculo diante dos mais de cinco metros de mármore branco dobrados sobre os joelhos à sua frente. Estendeu a mão em prona, a qual foi delicadamente beijada pelos lábios frios da escultura. Uma brisa almiscarada acariciou-lhe o rosto. O cortejo foi interrompido pela voz árida de Moisés:
—Eis o popular Davi. Estávamos discutindo a justiça de Michelangelo, ou a falta dela. A comparação já começa desigual: o primeiro é o Profeta, exemplo de fé, devoção e retidão. Já o segundo, o adúltero, matador e dissimulado.
— Poupe-nos de seus queixumes. Já os ouvi, pois cheguei a algum tempo e passei a escutar tua conversa com nosso criador.
— Por que não me surpreendo. Enquanto eu liderava o povo eleito tu te deixavas levar pela cobiça. Ocupei-me do peso das tábuas da lei e tu, pérfido, atentaste contra vida do soldado traído. — Davi ergueu-se e avançou em direção a Moisés.
— Não consegues domar tua natureza maligna, mesmo na casa do Senhor, mesmo perante suas leis — provocou Moisés, levantando suas tábuas com as duas mãos. Davi parou, sentou-se no chão e pensou.
—Não percebes que não sou exatamente o Davi, assim como não és o Moisés? Somos esculturas e nossas maiores virtudes são a beleza e perfeição. Concordas comigo, mestre dos artífices?
— Embora tua beleza perturbe meu coração, não posso afirmar exatamente isso, meu gracioso colosso. — respondeu Michelangelo, enquanto coçava seu cavanhaque bifurcado.
— Ainda assim, — continuou Davi, —não me cabe a culpa por ser tão famoso. Todo ano, milhões de visitantes se amontoam para ter um vislumbre das minhas formas belas e perfeitas. E o que posso fazer, se não aceitar minha sina?
— "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus", — disparou Moisés — Vejo que a petulância ainda marca tua alma. — Depois dirigiu-se ao escultor: — Não é possível que concordes com esse pecador, maçom.
Michelangelo, não tendo como escapar da arbitragem, subiu no banco e pigarreou duas vezes.
— Minha estimada prole, é certo que meu papel aqui se dará pela palavra e não com o cinzel. Portanto, lhes rogo a enxergarem tanto pela razão quanto pela natureza humanas e venham comigo trilhar o caminho do meio de Aristóteles.
Davi e Moisés se entreolharam e, em seguida, retornaram sua atenção ao homem.
— Moisés. Ninguém duvida seres o Arauto da Palavra. Tua fúria e majestade movem aqueles que buscam propósito. Porém, não desprezes a beleza de teus traços e a perfeição com que vos lapidei. Teus chifres, por mais inusitados que possam parecer, hoje são temas de discussão acadêmica e admiração artística. Se abrires mão deles, perderás isso também.
Moisés quase esboçou um sorriso, juntou suas tábuas e voltou a fundir-se a seu pedestal.
— Davi. Sua beleza e proporções anatômicas impecáveis tornaram-te ícone, tanto da arte renascentista quanto da perfeição da forma humana. Mas não esqueças que tua coragem inspira os que enfrentam gigantes. E por último, — continuou Michelangelo, — embora eu nunca tenha sido um bom cristão, quero lembrar-lhes do que têm em comum: ambos são talhados na pedra bruta; ambos apenas precedem o Cristo, este sim, a preciosa gema, cerne de toda graça e devoção.
— Se tu dizes, mestre, devo concordar. Mas quem sabe se um dia não serei tão querido quanto o Filho, — disse Davi, enquanto se ergueu em sua icônica posição. — Michelangelo levantou os olhos e Moisés deu um último suspiro.
***
Dias depois, numa livraria gospel de Taguatinga.
— Filho, escolhe um caderno de cem páginas pra matemática. Tem várias capas lindas. Olha aquela com o Cristo crucificado!
— Legal mãe, mas vou pegar esse do Rei Davi segurando a espada.