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Crônica

Olhos Entreabertos

April/2025

Paulo Carbonera

Decidi escrever esta crônica porque hoje de manhã aconteceu uma coisa estranha. Quando acordei, não consegui abrir os olhos. Demorei um pouco para me dar conta. Será que eu estava mesmo acordando? Não estaria eu sonhando?, naquele estado entre o sono e a vigília, tênue como a linha que separa o medo do desejo. Lembrei do meu companheiro, que deveria estar ao meu lado. Tentei cheirar. Nada. Não senti aquele cheiro de homem, meio almíscar, meio maresia, que por vezes sinto no amanhecer que segue uma noite que valeu a pena. Eu gosto de escrever, mas quase ninguém lê. Nem o Ulisses. Ulisses é o meu marido e ele acha que ler é perda de tempo.

Não consigo abrir os olhos.

É incrível o que a gente pensa nessas situações estranhas, em que a mente quer, mas o corpo não obedece. Corpo dolorido, por sinal. Sinal da idade. Depois dormi de novo e então acho que acordei. Digo acho porque minhas pálpebras teimavam em jazer sobre as pupilas, tal como mármore lacrando dois túmulos. Quando era criança, lembro de abrir os olhos no meio da noite. De pijaminha listrado, curto, olhava para as quase sombras que se formavam na quase escuridão do meu quarto. As frestas da janela deixavam entrar uma nesga de luz que refletia no guarda-roupas e na velha poltrona branca, que se ressentia pelo pouco uso. Me tapava com as cobertas até criar coragem de correr pro quarto dos meus pais e me enfiar entre eles. A mãe me abraçava, mesmo dormindo, e o pai, ia mais pro cantinho. Porque não é assim pra sempre? Cresci, abri os olhos apaixonados pelo mundo, pelo amor e pela vida, essa megera, cheia de promessas. Não sou mais assim, hoje enxergo as coisas como são. Ulisses acha que é gladiador, mas não sabe que eu seguro a rede. Somos como guerreiros na arena romana, cada qual com sua arma preferida.

Não consigo abrir os olhos.

Dia desses dormi com a TV ligada, estava vendo o Youtube, não me lembro bem qual canal. A reportagem, gravada, mostrava trechos da fala do Xandão tentando justificar o processo contra o Bolsonaro. Os dois rapazes do programa, um deles advogado, jurista até, desmentia cada acusação, provando a perseguição do sistema contra ele. E o pior é que tem um monte de ingênuo que acredita na impressa tradicional. É bem como dizia nosso eterno filósofo, Olavo, homem bom, que Deus o tenha: O idiota útil, por definição, é idiota demais para saber a quem é útil”. Mas é isso. O Lula também não foi preso? Depois foi solto pelo sistema e agora é presidente. Vai acontecer a mesma coisa com o Mito, pode esperar.

Não consigo abrir os olhos.

Já que falei de gente ingênua, lembrei da mãe. Minha sonhadora, querida e pobre mãe. Hoje ela poderia estar numa vida melhor, numa condição mais razoável. Mas ela sempre acreditou em tudo que os padres diziam. E eu também! Mas só até os treze anos, quando parei de ir à missa. Foi uma briga. Foi na época em que a mãe entrou naquela de que o reino dos céus é para os pobres, que devemos pensar primeiro no próximo e depois em nós, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Pura conversa pra boi dormir, pois nada disso está na Bíblia. Ainda bem que logo depois conheci o Jonas, um coleguinha novo que foi minha primeira paixão proibida. O pai dele era pastor e eu me converti. O Jonas não teve a honra de roubar minha inocência, embora eu tenha facilitado bastante as coisas pra ele. Mas, Deus escreve certo por linhas tortas. Foi-se o Jonas e ficou a Igreja. Aprendi que Deus quer que a gente tenha sucesso na vida. Só é pobre quem quer! Se você é rico, é por que Deus gosta de ti. Se ainda não é… se esforce mais, sei lá. Dá mais pra Igreja! Às vezes só o dízimo não adianta. Pra mim sempre adiantou. Hoje, posso confessar porque já tenho idade pra isso, que alguns anos mais tarde foi justamente o pai do Jonas quem me iniciou. Sabia das coisas aquele pastor.

Não consigo abrir os olhos.

A gente só dá valor para as coisas quando elas faltam. Nunca tinha pensado em como é bom acordar e abrir os olhos, mas sem perceber que abriu. Simplesmente a gente abre, no automático, e começa e enxergar, meio dormindo, meio acordando. Bem, antes falei sobre ter dinheiro e me dei conta que amanhã chega nosso carro novo na concessionária da BYD. Claro que já temos um carro, mas agora compramos um elétrico. Sinceramente, não sei se vale a pena, mas o Ulisses me convenceu. Depois, sabe como é. Quem tem a sorte de ter um amante vinte anos mais jovem tem que ceder em algumas coisas. É o "toma lá, dá cá" do casamento, sabedoria milenar ensinada pelos judeus. Foi o Ulisses também que me convenceu a adotar a Micha, afinal, como terei filhos? Micha, é nossa cadela. Como ele escolheu a raça eu escolhi o nome: Micha. Micha, de Michelle, em homenagem à nossa primeira dama. Fofo, né. Ulisses queria batizá-la de Telêmaca. Que sem noção! A Micha é uma golden e é terrível. Ontem de manhã acordei com ela em nossa cama, lambendo todo meu rosto. Boca, nariz, olhos. Tudo. Parece até aquela música da Xuxa:olhos, ouvidos, boca e nariz”. A Micha. essa jaguara sempre faz isso. E que bafo podre!

— Não consigo abrir os olhos!

Finalmente, consegui falar. A voz fugiu-me pela boca num grunhido medonho, seco como as primaveras de Brasília. Tentei abrir os olhos de novo, mas eles pareciam grudados. De repente, senti algo úmido nas minhas pálpebras. Um carinho molhado.

Shih! Quietinha, minha Penélope Charmosa. — Era o Ulisses, debruçado sobre meu peito, seu peso como um véu de chumbo. Adoro quando ele me chama assim, faz me sentir mulher. Pude notar então que ele passava chumaços de algodão umedecidos sobre meus olhos. Lentamente, os primeiros raios de luz invadiram minha retina, por uma frestinha que se abria pelo olho esquerdo. Através da névoa, vi ele sentado na poltrona branca, ao lado da cama.

— Eu te amo, cara — resmunguei.

— Deve ser conjuntivite.