Imagem do Texto

Conto

Além do Rio

November/2024

Paulo Carbonera

Novamente me vejo ficando para trás. Sei que não vou resistir aos dez horizontes de distância até que encontremos água, alimento e um lugar seguro. Como da última vez, Ombira, a guardiã das chuvas e também minha irmã, atrasa o passo para me esperar.

— Vamos, tu consegues. Afinal tu és Inkani, o que não desiste.

— Deixe-me e vá com eles. — Respiro fundo, cada palavra custa. — Só preciso recuperar o fôlego... eu vos alcanço. — Ambos sabemos que não é verdade. Ela encosta sua cabeça na minha e me faz um cafuné. Lembro quando Nyara, a voz da floresta e nossa mãe, fazia cafuné na gente.

— Vá, — eu disse, — olumas não mentem. Ela me olha pela última vez com seus grandes olhos marejados, sussurra um lamento, vira-se e se apressa em alcançar os outros. Eu também choro, baixinho. Fico ali, parado, por um bom tempo. Observo os oluma pela última vez, seguindo em direção ao céu poente feito pedra pintada em rúbia.

Os oluma perambulam pelas terras da grande Zuu'mbalha desde sempre. Desde que não havia secura e o chão tinha mais árvores do que capim. É o que diz a Matriarca, nossa guia. Sabemos de todos os caminhos e de todos os lugares.

Viro para o nascente e começo a andar, sem pressa. Sei que seguindo por essas trilhas encontrarei o rio e seu delta de sulambos, os pântanos de inundação que costumavam ser nossa morada. A Matriarca também sabe disso. Todos sabemos. Contudo, apesar da água abundante e do alimento farto, o lugar não é mais seguro. Não que isso importe agora, pois tudo o que eu quero é encontrar um brejo e deitar-me à beira de suas águas.

Ando um pouco mais e avisto uma mbaloka, com seus galhos agigantados que sussurram às estrelas e cujas raízes buscam o centro do mundo. Porém, não é uma mbaloka qualquer. Passei por ela, vindo do sentido opostopelo menos cinquenta ciclos, na época em que metade de mim morreu junto com Khalu, a grande sentinela do horizonte, que também era meu pai.


Era o fim daquela primavera. Eu tinha onze ciclos e Ombira completara cinco. Brincávamos com outras crianças nos banhados, rolando e jogando lama uns nos outros. Nyara nos observava de longe e meu pai estava com a Matriarca numa colina próxima, vigiando o horizonte. Ele andava de um lado para o outro, parava por alguns momentos, e voltava a olhar em direção à nascente do rio.

— Crianças, seu pai acha melhor vocês não se afastarem tanto da colina. — Era nossa mãe, nos chamando. — Parece que um bando ranthù se aproxima.

Sempre os ranthùs. A fama de sua malignidade era conhecida. Matavam por matar. A Matriarca contava histórias sobre eles, todas de arrepiar. As últimas, tidas como boatos, davam conta de suas novas armas letais: as lanças negras.

Voltamos para perto deles, o dia avançou e Ombira foi novamente brincar no charco. Fiquei perto de Nyara, que conversava com outras mães. Elas diziam que a Matriarca decidira ficar, pois apesar de os ranthùs serem perigosos, nossa tribo sempre rechaçava suas investidas. Olhei para baixo e vi Ombira ainda brincando nas águas do alagado e decidi descer a colina, para cuidar dela.

Pouco tempo depois ouvi a gritaria e então os avistei. Eles vinham pela nascente do rio, gritos ferozes cortando o ar. Assustado, olhei para trás em busca de Khalu e Nyara, mas não os encontrei. O que vi, por desventura, foi outro bando que vinha subindo as colinas pelo poente, fechando o cerco.

Estaqueei ao perceber que carregavam lanças negras.

Tembam, aquele que faz a terra tremer, lançou-se ao combate liderando nossos melhores guerreiros enquanto a Matriarca reunia mães e crianças nos flancos distantes, buscando proteção.

Só então percebi que o bando que vinha pela nascente do rio já estava muito próximo. Moviam-se rapidamente, montados em aberrações, nos monstros fumacentos. Sem titubear, corri em direção à Ombira e cheguei quando as bestas já a cercavam. Eram como esqueletos de pedra, com corpos formados por fumaça e fogo. Precipitei-me à frente de minha irmã e senti um golpe na perna. Depois outro no peito. Achei que fosse nosso fim quando ouvi Khalu:

— Fujam! — Ele não era guerreiro, mas era grande. Ele rompeu em nossa frente, atropelando o bando que nos atacava, o que nos deu tempo para fugir. Mais acima, o bravo Tembam ainda resistia às investidas do inimigo, mas cambaleava e movia-se com dificuldade, prenunciando sua iminente derrocada.

— Corram, eu já disse,trovejou Khalu, após investir contra um dos monstros fumacentos.

Empurrei Ombira para cima e corremos em direção à nossa mãe, que nos esperava, contendo o pranto.

— Venham!

— Mas mãe, o pai precisa de ajuda, — resmunguei.

— Ele ficará bem! Depressa!

Partimos em desespero, o pavor subindo-me pelas entranhas, e nos juntamos aos demais olumas para salvar nossas vidas.

Antes de estarmos a uma distância segura ouvimos o grito de agonia e exaustão de Khalu. Olhei para trás para vê-lo tombar. Quase uma dezena de inimigos o fustigavam. No fim, um deles, criança, subiu em seu corpo agonizante e deferiu-lhe o certeiro golpe. Apesar da pouca idade, a crueldade já dominava o sorriso daquele menino. Jamais esqueci seu semblante.

Foi assim que metade de mim morreu. Anos mais tarde, com a partida de Nyara, a metade que sobrara quase foi por inteiro. Ombira e eu ficamos dias ao lado de nossa mãe, depois que ela desmoronou e não levantou mais. "Nos veremos novamente", ela dizia.


Agora, depois de contornar delta que lambe a terra sedenta, chego ao velho sulambo. Já posso avistar os primeiros sinais ranthù. Também sinto seu fedor. Eles fizeram seus barracos em torno dos alagados e praticamente ocupam toda a área de inundação. A raiva e o medo batem cada vez mais forte no meu peito, mas não paro. Mesmo exausto, ainda tenho forças para continuar. A brisa fresca escorre sobre a pele ressecada do meu rosto e muitas lembranças me tomam de assalto. Meus passos são trôpegos e cada um deles é embalado por alegria e tristeza.

As margens do alagado se aproximam. Algumas crianças me cercam e correm atrás de mim. Umas atiram pedras e tocos de madeira, mas eu às ignoro. Sou muito maior e não pretendo lhes fazer mal. O cheiro doce da água agora inunda minhas narinas e já posso senti-la acariciando minha pele e chamejando minhas orelhas feridas.

Sou dragado pela realidade e paro, de súbito, diante das lanças de dois guerreiros que atravessam meu caminho. Percebo um terceiro chegando. Ele se aproxima por entre os outros e se coloca à frente. É velho, com a barba branca e cabelos ralos. Ele me encara O tempo não apagou seu rosto e seu olhar feroz. Minha respiração, que já era ofegante, torna-se ruidosa, cada fôlego um martírio.

Eles trocam algumas palavras em seu estranho idioma. Parecem debochar de mim. O menino velho me encara novamente. Seu sorriso, enchido de malícia, me traz fortaleza. Eu avanço.

Os outros contra-atacam, mas suas pontas afiadas passam zunindo no vazio. O velho tenta sair para o lado, mas num maneio preciso faço meu marfim esquerdo dilacerar sua pele fina e transpassar a barriga. O velho estrebucha, pendurado à presa e o odor das vísceras me empurra para o chão. Assim mesmo, sigo marchando em direção à água.

Os lanceiros se recuperam e disparam atrás de mim, seguidos pelas crias barulhentas. Ainda tenho forças e arremesso o corpo do velho sobre eles. Sinto estocadas pelas costas, algo atinge meu olho, meus joelhos mancam. Nada mais importa.

Finalmente tombo às margens do sulambo.

A água, fresca e doce, me envolve. Ouço seu canto suave, sussurrando-me histórias antigas. Com um olho ainda aberto, vejo Khalu e Nyara à espera, pairando sob a luz. Agora sou eles. Sou rio. Sou tudo.