Conto
Os Sonhos de Faruk
November/2024
Paulo Carbonera
27 de outubro de 2258 - Moscou, Império Sino-Russo
Yelena acordou por volta das 11h, com dor de cabeça e boca muito seca. Tateando com a mão esquerda tentou alcançar a garrafa d’água que escorregou-lhe e explodiu em estilhaços no chão. — Chyort!, — gritou. Tomou coragem, deslizou para o chão pelo outro lado da cama para evitar os cacos e arrastou-se até o banheiro. Vomitou uma vez. E vomitou de novo. E depois, quando era só bile, começou a melhorar e sentir-se gente. Não bebo mais. Não esse ano. Não desse jeito.
Quando saiu do banho lembrou de ligar seu comunicador corporativo. Correu, ligou o aparelho e pipocou um alarme:
Restrito - 2258-10-27 - 09:40
Agenda: Missão DSR
Local Destino: Nova Atlântida – Centro de Diagnósticos Federal
Contato: Dra. Anna Meyer
Partida: Estação Belorussky Sub-Maglev – Portão 38
Horário: 12h20
— Chyort voz'mi!, tinha esquecido! E saiu correndo.
27 de outubro de 2258 - Nova Atlântida, Europa Neutral
Yelena conferia seu cabelo pelo espelhinho da carteira de cigarros após interromper mais uma vez a leitura de Crime e Castigo, do camarada Dostoiévski.
— O que estão esperando? — disse ele, enquanto levantava-se pela quinta vez e tentava enxergar através da parede espelhada.
Ela levantou os olhos do livro e o mediu de cima-abaixo. O terno surrado do homem, estilo Século XX, contrastava com a boa aparência de Yelena, vestida com macacão preto, bem ajustado em seu corpo atlético e calçando botas cano alto vermelhas em efeito ton sur ton com seu sobretudo escarlate.
— Calma, Leroi. Porque a pressa? — disse ela, entre uma tragada e outra.
— Porra, podia apagar essa coisa fedorenta?
Ela notou que o homem estava nervoso. Era esperado para alguém que nunca estivera nos andares mais profundos de uma cidade semi-submersa, ainda mais um “amériko” de meia idade.
— Cigarro. O nome disso é cigarro. Um pouco de fumaça é até bom pra disfarçar o cheiro de desinfetante dessa sala. Ninguém fuma na Freedom Corp?
— Sempre tem os porra-loucas. Eu prefiro não ter câncer na faringe, como teve minha mãe.
— Da ládno!, sinto muito! — suspirou ela, engolindo um meio sorriso e apressando-se em fumar para apagar o cigarro.
Yelena tentou se concentrar no assunto que vieram tratar. Os neutrais informaram que tinham em mãos um possível "DSR Nível 1" e chamaram os dois Impérios. Do lado dos EUA, a Freedom Corp enviou Leroi e a Soyuz-Tech encarregou Yelena, oficial especialista em Eventos Disruptivos.
Leroi havia se levantado novamente quando a porta se abriu. Uma mulher alta vestindo jaleco branco impecável entrou acompanhada de dois homens muito jovens, que vestiam preto.
— Bem vindos ao Centro de Diagnósticos de Nova Atântida. Sou a dra. Anna Meyer, Psico-cientista Chefe.
—Leroi McLister, Diretor Executivo Especial da Freedom Corp, — antecipou-se o homem, num firme aperto de mãos.
Yelena levantou-se logo em seguida. — Yelena Dubrova, representante legal da Soyuz-Tech.
— A China não enviou ninguém do Partido? Ouvimos boatos dos grandes avanços que estão tendo na área de biomedicina e nanotecnologia. — perguntou Anna, enquanto se cumprimentavam.
— Inicialmente tratamos eventos DSR como assuntos de defesa. É com a gente mesmo, — respondeu Yelena.
Passadas as rápidas apresentações Anna dispensou os dois subordinados e ajeitou três cadeiras em torno da pequena mesa de reuniões. Dessa forma todos poderiam observar a parede de espelhos. Em seguida sentou-se, pressionou um botão e a parede tornou-se translúcida.
Na sala ao lado, agora observada por eles, estavam um homem com roupas de hospital e outro, de barba e cabelos brancos que usava um jaleco muito parecido com o que Anna vestia. Eles conversavam e estavam sentados a uma pequena mesa metálica, um de frente para o outro.
A primeira impressão de Yelena acerca daquele homem de cabelos negros e desgrenhados que vestia pijamas foi tratar-se de um lunático abstinente. Mais um homem das ciências que abusou dos suplementos psiconeurais. Contudo, ele estava muito calmo para enquadrar-se nesse perfil.
— O cientista é o Dr. Paulini, meu colega. O outro é nosso paciente. Chama-se, Faruk Al-Attar, 42 anos, antropólogo egípcio. — Explicou Anna. — Vou direto ao ponto: Faruk afirma ter recebido conhecimentos avançados os quais permitirão à humanidade a realização de viagens espaciais.
— Vocês têm água? – Perguntou Yelena.
— Como? Água? Sim, vou mandar trazer água para nós, — respondeu Anna, e pediu pelo seu comunicador para alguém trazer água.
— Viagens interplanetárias, imagino. — Afirmou Leroi, como retórica.
— Intergalácticas, — respondeu Anna. — Tecnologia de dobra, mais especificamente.
— Impossível, esse cara é um fodido de um maluco, — disse Leroi. — Viagens intergalácticas? A Freedom encerrou todos os programas espaciais há mais de cinco décadas. Essa merda toda quase nos quebrou, todo mundo sabe.
A porta abriu-se novamente. Era a água. Um dos rapazes que vestiam preto trouxe três garrafas de água, três copos e deixou-os sobre a mesa.
Nesse ponto Yelena tinha que concordar com Leroi. Nenhuma empresa de tecnologia bélica gastava um Unit sequer com pesquisa espacial. Ainda mais depois do fim do Acordo Global de Proteção de Satélites. Todo esforço das últimas décadas tem sido no desenvolvimento de armas subatômicas de baixo impacto ambiental. Era isso que importava para a indústria.
— Inicialmente também o consideramos louco, — continuou Anna.
— Inicialmente? — perguntou Yelena, franzindo a testa.
— Sim, quando o recebemos jogamos ele na Ala dos Lunáticos, como chamamos aqui. Mas sua lucidez e, principalmente, seu conhecimento de astronomia avançada começaram a intrigar nossa equipe médico-científica. Então decidimos dar a ele uma estação de trabalho e chamamos o Dr. Paulini para acompanhá-lo. — Anna fez uma pausa.
E então? — interveio Leroi, impaciente.
— De acordo com Paulini, os conceitos tecnológicos que Faruk nos apresentou até agora foram surpreendentemente coerentes e avançados. Mais do que vocês imaginam, acreditamos.
— Você vai tomar sua água, dra. Anna? — Perguntou Yelena. A cientista fez que não com a cabeça. Yelena pegou a garrafa e, após dar alguns goles, continuou: — E de onde ele tirou tudo isso? Ninguém desenvolve tanta tecnologia do nada.
— Esse é o ponto, Yelena, — respondeu Anna. — Isso vai parecer estranho, eu sei, mas ele afirma ter recebido conhecimento alienígena.
Yelena recuou na cadeira e Leroi começou a rir.
— Não falei que era doido, — debochou Leroi. — Quando as pessoas vão entender que estamos sozinhos nessa merda de planeta? Provavelmente na galáxia, eu diria.
— Alienígenas? Não faz nenhum sentido, — concordou Yelena. — E onde estariam agora os supostos alienígenas que fizeram contato com Faruk?
— Ele não diz exatamente isso. Desde que chegou aqui mantem a mesma narrativa: seu contato com os supostos alienígenas se deu através de sonhos, que aconteceram por dezenove noites consecutivas.
— Difícil de acreditar.
— Bem, examinamos Faruk. Viramos ele do avesso, embora não precisasse, pois já nos primeiros exames encontramos um tumor em seu cérebro. 25 milímetros. No lobo central.
— Já entendi. Não precisa nem continuar. Vocês acham que esse tumor tem alguma relação com a repentina “genialidade” do sujeito, certo? — Questionou Leroi.
— Não descartamos essa hipótese. Após a identificação do tumor, fomos mais a fundo e percebemos que o lobo central de Faruk está ligeiramente aumentado e com um nível de atividade acelerado. — explicou Anna.
— Olha, vou ser direto. Se esse tal Faruk detém mesmo esse conhecimento, o que eu duvido, não vejo porque vocês nos chamaram — disse, Leroi. — Ou isso é algum tipo de leilão?
— Não, de modo algum. Faruk nunca nos repassou tudo o que diz saber, — esclareceu Anna. — Ele insiste que tem instruções precisas em repassar as novas tecnologias de forma gradual. E somente para um futuro consórcio formado pelos dois Polos Imperiais.
Yelena e Leroi olharam-se com rara cumplicidade, como se soubessem que essa condição dificilmente seria cumprida.
— E porque vocês não extraíram as informações dele através de métodos mais persuasivos? — questionou Yelena e continuou, após alguns segundos de silêncio. — Não sejamos hipócritas. Todos nós fazemos isso quando necessário.
— Bem, na verdade tentamos. Sempre respeitando a integridade do paciente, claro. Mas… em todas as tentativas percebemos que o tumor cerebral de Faruk começava a aumentar. E rapidamente. Se continuássemos ele morreria.
— Diabos, vocês são reféns do miserável. — disse Leroi.
— De certa forma, — respondeu Anna.
A sala ficou silenciosa novamente. Yelena serviu-se de mais um copo de água e não teve pressa alguma em bebê-lo. — Imagino que vocês têm uma proposta, — especulou.
— Sim, temos. Nossa proposta é um consórcio trinário. Seria composto por suas empresas e o Ministério das Ciências da Europa Neutral.
Yelena e Leroi entreolharam-se novamente.
— Vou levar o assunto pro Board. Mas já adianto que é um arranjo improvável. Não vislumbro geração de valor para os acionistas, pelo contrário.
— É assunto para nosso Comitê Ampliado, certamente, — concluiu Yelena.
— Eu faço um apelo para que seus governos deem a devida importância ao assunto. Isso poderia ser um novo marco para a humanidade, — disse Anna. — Uma última questão: se o tumor for realmente obra alienígena. Hipoteticamente. Isso não os preocupa?
Leroi olhou para Yelena.
— Não trabalhamos com especulações, — respondeu Yelena.
— Com ou sem preocupação, se alguns aliens fodidos puderem implantar uma merda de tumor em nossas cabeças certamente não teremos chance contra os miseráveis, — completou Leroi.
04 de novembro de 2258 - Moscou, Império Sino-Russo
Uma semana havia se passado desde que Yelena retornara para casa. Acordou por volta das 11h, com dor de cabeça e boca muito seca. Tateando com a mão esquerda alcançou a garrafa d'agua e tomou meio litro de uma vez. Não tem como beber e não fumar. Deus, como alguém consegue sair pra noitada e só beber? Puxou seu comunicador corporativo, para ver se tinha alguma mensagem importante.
Restrito - 2258-11-04 - 09:35
Recebemos o comunicado da morte do alvo monitorado EG-5.950, conhecido por Faruk Al-Attar.
Motivo: causas naturais.
Teve sorte o Faruk. Achei que iriam mantê-lo vivo por mais tempo.
Pessoal - 2258-11-04 - 09:52
Amostra biópsia - hipótese: tumor orofaríngeo
Resultado: positivo
Tipo: Carcinoma Espinocelular
Estágio: Inicial
…
Chyort! Praga do Leroi, certamente, aquele bastardo. Azar da mãe dele ter nascido no ocidente.
…
Camarada. Você receberá dentro de dois dias úteis uma caixa contendo 30 comprimidos de Oncolaryx 120mg (Oncolaryxum).
Recomendações:
• O tratamento deve seguir rigorosamente o preconizado na bula.
• Se a bula estiver apenas em chinês, solicite mesma via tradução para o russo.
• Estudos indicam que não há garantia de cura efetiva em casos associado ao consumo ao álcool ou outras substâncias psicoativas ou psicotrópicas.
Desejamos uma boa e plena recuperação.