Imagem do Texto

Poema

Silêncio em Fuga

November/2024

Paulo Carbonera

Já é noite alta e eu desejo o silêncio

Sei que não sou poeta, tão pouco cronista

O desafio é estrondoso e embaralha-me o olhar.

As tramas, as manhas e artimanhas do artífice

Se rompem no louco e pulsante lume da tela

E o danado não vem. Escorre nos bits do tempo.


É tempo que corre, reparo, meu coração bumba

Sou cego catando o caminho das justas palavras.

Mas fui provocado e persigo a calada matreira

Na pausa insolente do repicante pandeiro,

Na mão fria que cala o bombo legüero, contudo

Festivos tambores me afastam da sorte.


É tempo que escorre e horror que enrijece, é certo

Que quem deu-me desejo alijou-me do jeito

Mas resta a pirraça e o brio vem de dentro.

Então quero entrar no oco das coisas, de tudo

Ouvir o falar das paredes e a palavra que manca

E a noite me diz: é hora de a hora dormir.


Sussurram no ocaso as trovas surgentes

Sei que a pena tem tinta, mas o peito é sentido.

A voz que me falta agora grita mais alto

E emudece o que diz a vizinha que apanha

E bagunça os sonhos do velho que dorme

Silêncio! É Oniro chegando e meus olhos abrindo.