Conto
Pena de Fumaça
March/2024
Paulo Carbonera
Estaria mentindo se dissesse que jamais pensei encontrar-me nessa situação. O fato é que só mergulhando bem no fundo do fosso de medos e pavores, convenientemente esquecidos, é que eu ousaria pensar nesse momento. No fim das contas, nossos piores pesadelos são aqueles que nem sequer temos coragem de imaginar.
Contudo, de fato eu estava ali, inexoravelmente pasmo, sentado e afundado na poltrona do meu escritório. Bem na minha frente, o Julião Açougueiro, estacionado, me encarando com sua horrível cara de kombi amassada.
Para entender como cheguei a essa situação deveras incômoda, é preciso explicar alguns detalhes importantes da minha vida e da minha profissão. E esta não se deu por escolha, mas por vocação. Venho de uma família sui generis. Por gerações, muitos de nós nos ocupamos do ofício de contar estórias: contistas, romancistas, revisores, editores e tudo o mais. O que nos torna diferentes, porém, não é dado pela quantidade, mas pelo dom. De tempos em tempos, nasce entre nós alguém com um talento único e perturbador.
Eu deveria ter uns três a quatro anos quando comecei a esboçar meus primeiros riscos e desenhos. Foi nessa época que, pela primeira vez, meus pais se entreolharam e perceberam: dos papéis nos quais eu rabiscava, uma fumacinha brotava. Tímida, inodora e fresquinha, ela tomava formas abstratas e esvaia-se rapidamente. Com o passar do tempo, contudo, a fumaça já brotava densa e decidida. Depois de falhar uma geração, eis que nossa família ganhava mais um Pena de Fumaça.
Para frequentar a escola, precisei dominar a emanação vaporosa. Anos depois, já adolescente, ampliei meu controle e passei a entender melhor meu processo de escrita. Tudo, absolutamente tudo o que eu imaginava e descrevia fluía em vapor do caderno. Em rodopios regulares e harmoniosos, os cenários e personagens ganhavam forma e transmutavam-se na cadência das cenas que minha pena deitava no papel. Nessa época, imaginar e escrever estórias já havia se tornado minha principal atividade, sobretudo no meu tempo livre. Todos os dias, após retornar do colégio, eu ficava horas escrevendo e maravilhando-me com as belezas e horrores esfumaçados que dançavam na minha frente.
Foi também nessa época, que me aproximei do meu saudoso tio-avô Guilherme. Apesar de ser um escritor famoso e consagrado, que fizera fortuna com livros de autoajuda, era o que se poderia classificar como uma pessoa de poucas palavras. Levava uma vida solitária, a maior parte do tempo em casa, de onde só saía quando era absolutamente necessário. Contudo, além de mim, Guilherme era o único Pena de Fumaça vivo, então nossa aproximação fora inevitável.
— Por que você nunca se casou, tio?
— Penas de Fumaça não deveriam se casar. Mas você é muito novo para se preocupar com isso. Você deve se preocupar com outras coisas agora.
— Eu acho que estou gostando da Claudinha, filha da nossa vizinha.
— Já lhe disse. Se preocupe apenas com sua escrita. Você não sabe tudo que envolve nosso talento. A verdade é que ninguém sabe, devo admitir. Por isso mesmo temos o dever de dominar nossa arte, que é única. Se quer fazer fumaça, tem que fazê-lo com absoluto controle, parcimônia e sabedoria. Diria até, com excelência.
— Mas tio, é só fumaça. Por que todo esse estresse?
— Sim, pode ser só fumaça…, mas nossa família carrega muitas histórias esquisitas.
— O que está esperando? Conte-me, então.
— São estórias antigas. Já ouviu falar da tia Janice?
— Acho que já, sim. Ela não era tia da minha mãe? Na certa deve estar morta.
— Sim, exatamente, é o que todos pensamos. Ela foi uma das penas mais talentosas de que se sabe. Era querida por todos e escrevia estórias de amor encantadoras, cheias de romance, intrigas joviais e reviravoltas amorosas. Mas, ela queria viver aventuras e romances como os que escrevia com maestria. Um belo dia, chegou à sua casa um belo jovem, vestido tal qual príncipe. Dizem que ela encarou aquele estranho cavalheiro como se já se conhecessem e, sem dizer uma palavra sequer, montou na garupa do cavalo. Partiram a galope e nunca mais se teve notícias.
— Sei lá. Isso não deve ter acontecido desse jeito. Deve ter muito exagero aí.
— Bem, são causos. Nunca saberemos se isso aconteceu mesmo, dessa forma. Talvez ela simplesmente tenha fugido de casa. Ou, talvez, tenha enlouquecido.
— Tem algum outro caso desses?
— Bem, vou contar mais um. É sobre meu tio, João Ronaldo. Foi outro que desapareceu. Contam que desde sempre ele escrevia estórias sobre outros mundos, mundos fantásticos. Passou anos escrevendo sobre lugares diferentes, incríveis e mágicos. Criou reis, rainhas, magos, dragões, além de uma miríade de seres mágicos. Nas conversas de domingo, sempre dizia que seu maior sonho era viver os mundos que imaginava e fazia existir no papel. Foi dormir num dia e no outro ninguém mais o viu. Sumiu sem deixar vestígios.
Lembro também dos conselhos peculiares que tio Guilherme me dava.
— Você deve escrever de portas e janelas fechadas.
— Porque?
— Prefira escrever sobre fatos, não fantasias. Se quiser mesmo escrever ficção, escreva estórias de épocas passadas ou futuras. Evite escrever romances, prefira contos. Não repita personagens.
— Algum conselho não literário?
— Sim! Melhor seria se livrar disso, arranje outra profissão. Vá procurar aquela sua vizinha, Carlinha, se não me engano. Se gosta dela, e ela de você, casem, tenham filhos e sejam felizes.
Naturalmente, não segui nenhum dos seus conselhos. Escrevi cada vez mais, principalmente romances policiais. Não casei, não tive filhos, fiz carreira e vivi da minha escrita. Vida discreta, realizada e sem maiores preocupações. Isso até poucos dias atrás, quando os jornais começaram a noticiar crimes em série com grande semelhança aos do personagem do meu último e bem sucedido romance: “Le Boucher – O Esquartejador do Bom Fim”. O livro conta a estória de um serial killer que esquarteja suas vítimas com habilidades dignas dos melhores açougueiros. Pessoas do ramo o chamariam de artista.
No início, queria acreditar que o criminoso dos noticiários poderia ser um copycat. A vida estaria imitando a arte? Isso me tornaria corresponsável, mesmo que indiretamente? Mas as reais preocupações sobre minha obra eram outras, mais inquietantes. A vívida imagem do dia em que Julião, esfumaçado, saiu pela janela do meu escritório enquanto eu revisava mais uma vez o manuscrito teimava em me deixar incomodamente ensimesmado.
Bem. Agora sei, a despeito da estupefação, que as cismas tinham fundamento. A brisa fria que invadira meu escritório não se deu por acaso. A imagem de Julião Açougueiro realmente deflagrava-se bem diante de meus olhos, em carne, frieza e crueldade. E ele segurava sua ferramenta de trabalho preferida: um pesado cutelo de oito polegadas.
— Porque você me fez assim? — perguntou ele, depois me observar por longo tempo.
Por alguns segundos fiquei fitando aquela figura de aparência perturbadora que me lançava um olhar desalinhado, supostamente ameaçador. No fundo, também era um olhar de sofrimento e mágoa, como o de um filho rejeitado pelo pai. Pressenti que o tempo jogava contra mim.
— Era preciso, — balbuciei. — Se você não fosse desse jeito, obcecado pela morte, a estória simplesmente não existiria.
— Isso não me incomoda, isso eu gosto. — Seus olhos cintilaram. — Eu falo da minha aparência. Do meu rosto.
Lembrei-me da Ficha de Personagem de Julião. Eu o tinha descrito como um sujeito alto e forte, mas com um rosto muito feio. Estrábico, tinha um nariz enorme e torto e um olho bem mais baixo que o outro. A pele era bexiguenta e parcialmente coberta por uma barba falha e irregular. Causava repulsa nas pessoas e o asco alheio forjara sua personalidade ressentida, sádica e perversa. Uma coisa era consequência da outra.
— Eu posso explicar…
— Acho que não me interesso por suas explicações — ele disse, apertando o cutelo na mão direita.
— Espere! Eu posso consertar você, — eu gritei, tentando disfarçar meu crescente desespero. — Se eu morrer, ninguém mais poderá ajudá-lo.
Julião recuou, ficou reticente. Entortou o pescoço, coçou seu cavanhaque assimétrico e perguntou:
— E como você poderia me ajudar?
— Eu criei você, sou um Pena de Fumaça. — Olhei para minha escrivaninha e avistei o livrete com as fichas do elenco daquela estória. — Basta eu reescrever sua aparência naquele caderno. A decisão é sua.
Julião olhou para o caderno, pensou, pensou um pouco mais, baixou o cutelo e concordou.
Bastou escrever uma simples frase para que ele desfalecesse no chão. Teve um mal súbito seguido de morte. Não precisei me livrar do corpo pois, em segundos, Julião voltava para a fumaça e da fumaça para a dissipação.
Respirei aliviado, enfim, enquanto via a última fumaça de Julião se dissolver no ar como cinzas de um cigarro. Logo depois, contudo, foram minhas convicções que perderam solidez. Os conselhos do tio Guilherme já não pareciam tão descabidos.
Lembrei novamente da ficha de Julião e dei-me conta da minha sorte. A sorte dos subversivos. No caso dele, eu corrompera o clichê e o descrevera como um psicopata diferente do senso comum. Seria um psicopata, sim, mas seria burro.