Conto
A Fortuna segundo Felício
January/2025
Paulo Carbonera
Deitado na cama, sem mexer um músculo sequer, vejo à minha frente um elefante enorme, vestido com uma túnica simples de linho bege que lhe cai pelo corpo volumoso, ajustada por um cinto de corda. Ele cheira a manjericão, e seus olhos refletem o conforto do lar e uma serenidade ancestral. Uma luz suave ilumina suas enormes orelhas, como se fossem véus.
Sabe aqueles momentos em que você está dormindo, mas meio acordado, e não consegue se mexer ou falar? Tem um nome pra isso: paralisia do sono, salvo engano. É curioso o elefante ser exatamente igual ao elefantinho azul enfeitado com pedrinhas coloridas que vi ontem na loja de quinquilharias do Saul, só que muito maior e vestido como se fosse gente. Eu ia comprar aquele elefantinho, mas o Saul exagerou no preço, como sempre faz. Talvez o compre na próxima semana.
Sem dizer uma palavra, o elefante me perguntou se fui feliz na vida. Achei curioso, pois considero que não só fui feliz como ainda sou, apesar da idade. Nunca tinha parado para pensar seriamente nisso, então decidi responder: sem mexer a boca, disse a ele que sim, fui e sou cada vez mais feliz.
Meu nome de batismo já anunciava ao mundo minha dita. Graças ao bom Deus e à Virgem Maria, num raro momento de iluminação, meus pais chamaram-me Felício. Ainda assim, só fui feliz porque tive boa fortuna. Meu pai era um matuto, apesar de trabalhador, e minha mãe, uma dona de casa cujo único legado foi ter me feito católico. Ainda sobre meu nome, que completo é Felício Pinto Melo, admito ter passado a omitir o sobrenome do meio, o Pinto, que já me pregava peças desde cedo graças aos meus colegas caipiras de colégio. Uma gente ignorante, sem ambição. Devem estar até hoje naquele fim de mundo. Hoje assino de modo discreto, apenas Felício P. Melo, elegante como nos meus cartões de crédito.
Felicidade e sorte são a mesma coisa. Outro acaso que dei foi ter nascido católico. Já adianto: ser católico não é absolutamente coisa boa, não mesmo. Missas com sermões modorrentos, homilias sem sentido, confissão, pecado, e coisas piores. Eis que um dia, minha mãe conseguiu uma vaga para mim no Seminário da Paróquia, não por querer-me fazer padre, mas porque seria uma boca a menos na mesa. Lá, tive comida, uma cama decente e uma educação muito superior à que era a mim destinada. Não foi um mar de rosas, claro. Os colegas caipiras só mudaram de nome e tamanho, e fui a vítima preferencial das brincadeiras de mau gosto e intimidações violentas. Quanto aos mestres, tinham especial prazer em nos infligir um sem-número de castigos. Entretanto, lidei bem com os assédios dos padres que gostavam de garotos. Nesse aspecto, meu trunfo foi não ser bonito; sempre fui um menino sem graça — feio, alguns diriam —, e isso me protegia dos molestadores. Assim, suportei tudo até finalizar meus estudos, abandonei os padres, deixei o triste vilarejo rural e parti para a capital, onde vivo até hoje.
De olhos fechados, vejo o elefante ainda a me vigiar. Ele não havia ido embora, como eu pensara. Sentado, de pernas cruzadas, calmamente tomando chá. O aroma das especiarias fumegando voa da sua xícara de porcelana caiada e invade minhas narinas: Camellia sinensis, cravo e folha de laranjeira. Após sorver mais um longo e barulhento gole, ele insinua que a cidade pode não ter me feito tão bem quanto eu imagino, pois afastou-me em definitivo da minha gente.
Discordo veementemente, pois foi só aqui, na cidade, onde fui feliz deveras. Após uma série de trabalhos menores, a vida sorriu-me e consegui um bom emprego no cartório de títulos e documentos. O dono, outro ex-seminarista, simpatizou comigo e contratou-me por um salário decente. Nessa época, com a carteira forrada, busquei a felicidade nos prazeres mundanos. Tinha dinheiro e usava-o para comer bem, vestir bem e ainda sobrava para me divertir com as moças das casas noturnas. Mas é verdade que essa fase durou poucos anos. Não que tenha abandonado a boa mesa, nem tão pouco minhas roupas elegantes, mas com o tempo fui perdendo o gosto pelas mulheres. Na verdade, pelo sexo de forma geral — fato que, a rigor, deixou minha consciência até mais leve, dada minha educação voltada para o celibato. Aquela vida boêmia não me trazia nada além dessa satisfação hedônica, a qual posso alcançar de forma solitária, no conforto do meu lar.
E por isso não casei. Foi uma das mais acertadas decisões da minha vida! E veja só, essa não se deu por sorte, mas por convicção. Posso dizer então que boa parte da minha alegria, desde então, deu-se pelo livre-arbítrio e não pelos desígnios divinos. E olhe que não foi fácil. Como na época eu já tinha subido na carreira, não faltavam pretendentes ao matrimônio. Algumas moças eram até jeitosinhas — atraentes, eu diria —, mas não deixei esses impulsos primitivos me guiassem e mantive-me firme. Contratei uma boa empregada, Dona Catarina, que na época era chamada apenas por Catarina. A moça de origem polaca, até hoje trabalha comigo e além de honesta e discreta, é um verdadeiro trator: limpa a casa toda, lava, passa, cozinha e deixa minha humilde morada impecável. O que mais eu poderia desejar?
Depois de terminar o chá, o elefante levantou-se e passou a lavar a louça. Enquanto lidava, cantarolava melodias em escala pentatônica, qual um coral de monges franciscanos. Embora a música não tivesse letra, sua toada evocava ditos populares que sustentam a ideia da felicidade desambiciosa, desapegada dos confortos da vida burguesa.
Gosto dele, mas o simpático paquiderme ainda tem muito o que aprender da vida. Então, é de bom tom comentar sobre as besteiras ditas por aí sobre o júbilo. "Dinheiro não traz felicidade". Que coisa estúpida! Certamente que traz! Uma pessoa com um pingo de inteligência reconhece esse fato. Outro ditado obtuso afirma que os ignorantes são mais felizes. Por Deus, uma grande bobagem. É o culto à burrice? "Ambição e felicidade seguem estradas tão opostas que nunca podem encontrar-se". Ai, ai. Sem comentários.
Entretanto, mesmo tendo tudo para ser feliz, nessa época me dei conta da finitude da minha existência. Eu precisava de um propósito maior. Afinal, não tinha amigos próximos, nem família, e sentia falta de algo. Decidi dedicar-me a guardar mais dinheiro. Para que? Não, não era para emergências ou eventualidades. Descobri finalmente que o verdadeiro gozo vindo do dinheiro não é comprar coisas ou favores, mas a consciência de poder adquiri-los. O bom entendedor sabe: essa filosofia empurra a existência para um círculo virtuoso — inexorável, mas meu.
O tempo, esse impiedoso, passa até para os justos, e então uma nova inquietação tomou-me com força: se é certeira a chegada da morte, quem ficará com meu patrimônio? Meus familiares? Não, com certeza não. Meus pais já haviam morrido, e meus irmãos vivos não se importavam comigo — nunca faziam contato e certamente não mereciam. O que fazer? A resposta veio clara como meus cristais da Boêmia: doar para a Igreja, para a caridade! Tinha lido uma vez que a beneficência conduz à felicidade e, caso isso fosse verdade, eu poderia ser mais feliz. Muito, muito feliz. E não parei por aí. Decidi também reconhecer os anos de trabalho árduo da Dona Catarina. Ela herdaria a casa onde eu morava. Quem além dela merecia ficar com aquele imóvel? Essa última decisão mostrou-se incrivelmente acertada, pois, depois que lhe comuniquei minha intenção, Dona Catarina passou a dedicar-se ainda mais a mim e ao seu trabalho em casa.
Foi então que, dias atrás, a dúvida se insinuou — tímida no início, depois barulhenta como um tambor no peito: e se a herança prometida a Catarina lhe causasse ímpetos pérfidos, no sentido de abreviar minha existência a fim de antecipar seu deleite? Sim, como não tinha pensado nisso antes? Será que, quando se é bom demais, baixamos a guarda e não percebemos as maldades, ameaças e tramoias do mundo? Depois, descartei essa hipótese, pois sempre fui astuto — tanto que agora, mesmo com a bondade explodindo no peito, percebo o risco. Mas, retomando o cerne da questão: seria Dona Catarina capaz de infligir-me alguma malignidade? A resposta veio novamente cintilante: definitivamente, sim; afinal, a riqueza já corrompeu reis e rainhas, bispos e sacerdotes, guerreiros e generais, e por que diabos não mexeria com os miolos de uma velha miserável?
Decisão tomada. No dia seguinte, a chamei para uma conversa e lhe expliquei as mudanças de plano. Pensei que sua reação seria ruim, mas ela surpreendeu-me. Fechou os olhos por alguns segundos e respondeu-me, com a calma dos monges, não haver problema algum. Aproveitei e lhe disse que, caso ela se sentisse mal e preferisse sair do emprego, eu entenderia. Ela suspirou fundo e disse que, pelo contrário, fazia questão de continuar me servindo como se nada tivesse acontecido. E assim foi. Tanto é que ontem mesmo trouxe-me uma torta. Imagine, uma linda torta — para uma simplória como ela, certamente cara. Não me fiz de rogado, agradeci polidamente e aceitei a oferta. Comi uma fatia justamente antes de deitar-me.
Olha só, o elefante de novo, agora cheirando a baunilha, orelhas ao vento e olhos impenetráveis. Com certeza vou comprá-lo quando sair daqui. Sim, vou negociar um bom preço com Saul. Dessa vez, ele me pergunta se foi certo eu ter aceito a torta da Dona Catarina, se eu deveria ter comido um pedaço. Claro que sim, respondi. Afinal, para sermos felizes, precisamos aproveitar as graças da vida; devemos viver o hoje, pois nada sabemos do amanhã. E quer saber de uma coisa? O bolo estava tão bom que, se eu morresse hoje, morreria feliz!