Conto
Entre luas e azeitonas
September/2025
Paulo Carbonera
Era sexta-feira, dia dos tradicionais piqueniques noturnos. Faziam isso desde antes do casamento.
— Lupa, você está aqui fora? — perguntou ela ao sair para a varanda.
Ele não a notou. Segurando a garrafa de cerveja, o homem seguia espalhado na cadeira de pano, admirando a lua dominar o horizonte, orgulhosamente cheia.
Vanessa disfarçou o incômodo e armou a mesinha de madeira. Ele a percebeu, por fim. Ela estendeu outra cadeira e sentou-se ao lado dele.
— Quer? — disse ela, oferecendo a bandeja. — São sem caroço.
Ele fez que não com a cabeça, mas pegou a bandeja e a colocou na mesinha. Depois juntou o balde de gelo e o ajeitou ao lado das azeitonas.
— Ainda não me acostumei com essa casa — disse ela.
Ele deu mais um gole, baixou a garrafa e respondeu:
— É normal. Depois de anos morando em apartamento.
Não era isso. Vanessa odiou a mudança. A distância enorme dos vizinhos, o matagal dos fundos, a mosquitada. Mas Lupa dizia estar feliz. Ele precisava se reconectar com sua natureza silvestre, com os antepassados. Deus, como essa coisa besta de conexão com os antepassados a deixava puta. Também teve a ideia do cachorro. Ele queria adotar, e sugeriu um pastor. Quando Vanessa o questionou sobre sua alergia ele se fez de louco. Garantiu que nunca teve alergia. E perguntou:
— De onde veio essa história?
— Ora, da sua mãe! — Ele fez uma careta de incredulidade.
Vanessa tinha certeza que a velha lhe dissera que o filho era alérgico a cachorro. Por que ela iria mentir? Agora que se fora, Vanessa até se permitia ter saudades da bruxa. Curandeira, como diz Lupa. A memória de Vanessa gravou na rocha o dia em que a mãe dele alertou que ela iria se arrepender de casar com ele. “Luiz Paulo é encantador, eu sei, minha filha. Mas isso vai mudar, com o tempo. É coisa de família”.
Ela pegou uma cerveja, deu um gole, e lembrou por que aquela bebida amarga a desagradava.
— Não gosto de você bebendo — disse ela.
Lupa coçou o peito e largou a garrafa na mesinha. — Eu sempre bebi cerveja!
— Mas agora, toda sexta? — Ela acendeu um cigarro. — Homem que bebe toda sexta não é boa coisa.
— Quem disse?
— A Cidinha. E ela entende de homem — disse Vanessa, antes de soprar a fumaça.
— A Cidinha? A professora? Só me faltava essa. — Lupa pegou a garrafa, mas não bebeu. — Você não devia andar com ela. Ela é uma piranha.
Vanessa quase perguntou como ele sabia. Já tinha comido ela? Resolveu não questionar porque seria ridículo. Ainda confiava no marido e, principalmente, na amiga.
— Você devia procurar ajuda profissional — disse ela, livrando-se da garrafa.
Ele não respondeu.
— Talvez um médico, — ela insistiu.
— Não sei…
— Lupa! — Ela o repreendeu, olhando por cima dos óculos. — Você está diferente nos últimos tempos, disperso, descuidado. E tem a bebida — disse ela, apontando para a cerveja. — Você já percebeu como está peludo? Tem pelo até nas tuas narinas e orelhas. E agora essa barba, que você nunca teve.
— Eu sempre tive barba, só nunca deixei crescer.
— Sua barba sempre foi fraca, meu bem. Sua origem é indígena, lembra?
— Indígena por parte de mãe — ressaltou ele. — Por parte de mãe. Meu pai era português, e portugueses são peludos.
Como sempre, ele queria ter a última palavra. Mas os pelos não eram a única queixa: além do desleixo com a barba, agora Lupa enforcava banhos e até o cheiro era diferente. Um fedor, uma carniça entranhada. Dia desses, quando ela insinuara isso, com muito jeito, ele respondera que devia ser por estar comendo muita carne.
Vanessa respirou duas vezes, pousou a mão na perna dele e tornou a pedir:
— Vai no médico, querido. Estou preocupada.
Ele levantou e beijou-lhe a testa. — Vou tomar banho — disse antes de entrar.
Ela pegou a cerveja e deu outro gole. O gosto era mesmo péssimo. Jurou ter ouvido uivos. Detestava também aquela cachorrada.
Os dias repetiram a rotina desagradável da casa. Primeiro, os ratos; depois, a calha entupida com restos de pássaros; agora, mofo nas paredes. Ao menos Minerva, a empregada, tinha o que fazer.
Só na quinta-feira, no almoço, veio a novidade anunciada por Lupa: ele consultara o médico.
— E como foi? — perguntou Vanessa, interrompendo uma garfada de salada.
— Ele me pediu alguns exames de sangue. Fiz na segunda e retornei ontem com os resultados.
— E o que ele falou? — A salada ainda pendurada no garfo.
— Pelo jeito estou bem, no geral — disse Lupa, e depois coçou o peito por cima da camisa. — Me deu umas vitaminas, além do remedinho que já estou tomando desde segunda.
— E para que é esse remédio? Tem a ver com os pelos?
Lupa largou os talheres na mesa e, olhando para a janela, respondeu:
— Não, não tem a ver com isso.
Veio a noite e Lupa a procurou na cama. Há tempos que as quartas-feiras deixaram de ser especiais. Tudo descambara para o insatisfatório, para a falta, tudo ficara pela metade. Mas naquela noite… A despeito dos pelos, ele tomara banho. O cheiro, se você fungasse bem de perto, ainda estava lá. Mas o inesperado ímpeto, a volúpia, a fome, compensaram com louvores. Lupa revelava algo novo, selvagem, quase violento.
Vanessa acordou dolorida. No espelho, percebeu marcas vermelhas, como medalhas que lhe coroavam a pele. E à noite, já que era sexta-feira, houve o piquenique, mas as azeitonas restaram intocadas. E foi tórrido, como há muito não era, sob os holofotes prateados da lua.
— Amanhã de tarde tenho o chá com as meninas — queixou-se Vanessa, fazendo do peito peludo de Lupa travesseiro. Ele tragou o cigarro, mirando as estrelas. Ela, pensando melhor, concluiu que iria se acostumar com a casa. O cheiro de mato não era realmente ruim. Embora o marido lhe sonegara detalhes sobre qual remédio fora prescrito — provavelmente um antidepressivo poderoso —, o fato é que estava dando certo. Os pelos já não importavam tanto.
A segunda-feira chegou rápido. Vanessa despertou com o toque do celular. Tateou por cima do bidê, encontrou o aparelho e reconheceu a foto de Cidinha.
— Alô, amiga? — murmurou, ainda sonolenta. — Onze horas? Meu Deus, não vi que era tão tarde… Você esteve aqui no sábado? Sábado eu tenho chá com as casadas, você sabe. Espero que o Lupa não tenha sido grosseiro com você… Por falar nisso, amiga, está me dando um trabalho esse homem. Um fogo, nem te conto! Até a Minerva veio reclamar pra mim. Só me faltava essa… Como? Qual remédio ele está tomando?