Conto
Te matarei no inferno
September/2025
Paulo Carbonera
Esta poderia ser mais uma de tantas histórias de amor proibido, não fosse pelos acontecimentos extraordinários ocorridos no inverno de 2025, em Porto Alegre.
Era quinta-feira quando Mateo chegou por volta do meio-dia no edifício Piazza Verona, fincado há mais de 60 anos no coração do bairro Independência. O imóvel, recém-alugado, não figurava entre as primeiras opções. Buscavam algo mais novo e, principalmente, mais perto da PUC. Contudo, o preço do aluguel daquele apartamento amplo fora irrecusável.
— Oi docinho, já estou aqui dentro. Sim, deu tudo certo, — disse Mateo. — O apartamento é grande. — A noiva contou-lhe que a mãe descobrira seus planos. Na verdade, já sabia de tudo, mas, lhes daria apoio. —Você chega quando? — Ela chegaria no dia seguinte, ao final da tarde. — Tenho que voltar pro trabalho agora… sim, de noite vou ajeitando as coisas no AP.
Fechou o apartamento e chamou o elevador, que veio dos andares superiores. Antes de abrir a porta pantográfica interna, deparou-se com um casal, no mínimo esquisito. Ela, jovem, de calça vinho de veludo e paletó de cotelê, usava batom púrpura nos belos lábios. Ele, aparentando uns oitenta anos, vestia calça jeans surrada e uma japona bege da Decathlon. Mateo os cumprimentou e se ajeitou na parede oposta daquele cubículo.
— Novo morador do 71? — perguntou o homem idoso.
— Sim, estamos nos mudando.
O homem aquiesceu, balançando a cabeça. O elevador continuou a descida, rangendo o esqueleto metálico.
— Vocês são moradores? — perguntou Mateo, coçando a barba.
O velho o encarou, sorriu com sua boca ossuda e balançou um molho de chaves que levava junto a um caderninho encapado em couro:
— Tenho as chaves do 81. Sejam bem-vindos.
Enquanto isso, em São Sepé dos Desgarrados, as coisas se encaminhavam bem. Como era para ser.
Andressa arrumava meticulosamente a única grande mala que levaria da casa dos pais. Roupas, cadernos e livros, fotografias e pequenas lembranças de valor sentimental. O resto da mudança seguiria depois, do seu apartamento em Caxias. Ela dissera para o pai que fora aprovada no vestibular de Relações Internacionais, em Porto Alegre. O que era verdade. Não era verdade, entretanto, que o mesmo curso não existia em Caxias do Sul.
Andressa se virou quando ouviu o girar da maçaneta da porta de seu quarto.
— Minha querida, — disse a mãe após entrar e tomá-la num abraço. — Não se preocupe, as coisas vão se acertar. O tempo conserta tudo.
— Será mesmo, mãe? — respondeu Andressa, largando das mãos dela enquanto sentavam-se na cama. — Não me conformo, tudo por causa dessa disputa política. será que o tempo vai curar o ódio do pai? E a família do Mateo? Eles nos odeiam também.
— Deixe seu pai comigo, filha. E se acaso o tempo não der conta, com certeza, um neto dará.
Em Porto Alegre, Mateo voltou da PUC de lotação e parou na padoca da esquina antes de chegar em casa. O final de tarde preparava uma chuva daquelas. Mateo mentalizava as coisas que ainda faltavam no apartamento: micro-ondas, lava-louças, talvez um sofá novo… e fazia as contas para ver se conseguiriam comprar parcelado.
Chegando à portaria, passou reto por Lourenço, o porteiro. O elevador já estava no térreo, mas, antes de fechar a pantográfica, avistou o senhor do 81, acompanhado da mesma jovem. Seria ela sua esposa? Aguardou os dois chegarem e eles entraram. Não o cumprimentaram. A moça, andava com dificuldades e usava óculos escuros. Um hematoma na região do pescoço dela atraiu a atenção de Mateo. O velho, segurando apertado seu caderninho de couro surrado, o encarava, carrancudo.
Naquela noite, Mateo jantou pão com manteiga e jogou-se no sofá da sala. Dormiu no meio do Jornal Nacional. Acordou num sobressalto, com o que parecia ser um grito. Olhou para a TV e desligou o aparelho. Foi ao banheiro e, no caminho, escutou um arrastar de móveis no andar de cima. Parou. Entrou no banheiro e os incômodos ruídos continuaram, dessa vez mais intensos e, sem sombra de dúvidas, aquilo vinha do apartamento de cima. Só o que me faltava, resmungou.
Lavou o rosto e, quando se viu no espelho, gemidos quebraram o silêncio. Um ranger ritmado, soluços e lamúrias. Com o rosto em chamas, buscou uma vassoura e deu três batidas no teto da sala. Não acreditava que iriam se incomodar com os vizinhos. Sentou-se no sofá e encheu os pulmões, vagarosamente. Fechou os olhos. A imagem de Andressa dominou sua mente e, mais uma vez, lamentou a briga com o pai. Ele nunca iria aceitar nem sequer o namoro. Mas agora, com um bom emprego, as coisas não teriam mais volta.
Um grito rasgou o ar. Depois, lamentos chorosos. O estômago de Mateo borbulhava. A pistola Beretta 9mm, que fora presente do pai, descansava escondida no guarda-roupas do quarto de casal. Não, melhor não. Esqueceu da arma, mas decidiu investigar.
Apagou todas as luzes do apartamento e saiu e com passos cuidadosos. Subiu pelas escadas. Não custava ver se aquela merda toda vinha do apartamento 81. Será que o cretino agride aquela mulher? No andar de cima, abriu a porta corta-fogo, vagarosamente. Ficou parado, para que a luz não ligasse pelo sensor de presença. Daquela posição, ao lado do elevador, conseguia enxergar as portas dos dois apartamentos: o 81 e 82. Viu luzes no 82. No 81, entretanto, nem uma nesga saía pelas frestas da porta.
Tomando coragem, avançou a passos lentos. Posicionando-se ao lado da porta, quase encostou a orelha. Silêncio absoluto. Mas como? Aquela zoeira toda só podia ter vindo dali! Permaneceu quieto, por pelo menos dois minutos, e desistiu.
De volta ao apartamento, viu as horas e desistiu de ligar para Andressa. A adrenalina baixara, mas o sono não lhe visitaria logo. Conferiu a porta duas vezes. Trancou também com a chave tetra e tomou um Dramin. Apagou no sofá.
Mateo acordou antes do amanhecer. O vento forte, cheirando a poeira e crisântemos, batia as cortinas do janelão, anunciando mais tempo ruim. A noite passada ainda estava presente. O velho, a moça de batom e o escarcéu bizarro. Mas, em seguida, projetou a chegada de Andressa. Tomou rapidamente o café da manhã e, pelo whatsapp, enviou um recado para ela: “Meu docinho, estou indo para a PUC e só volto no final da tarde. Vou deixar uma chave com o zelador, Lourenço, para o caso de você chegar antes de mim. Te amo”.
Ao chegar no térreo, deparou-se com Lourenço que passava um pano na porta de vidro. Após combinar com ele sobre as chaves para Andressa, achou por bem especular:
— O morador do 81, um senhor de idade. Ele mora sozinho?
— Do 81? — Lourenço ergueu as sobrancelhas. — Deve estar falando do seu Moacir. Moacir Thiavolo, do 92. O 81 está desocupado.
— Desocupado? — surpreendeu-se Mateo. — Nossa, jurei ter ouvido uma barulheira ontem, vindo de lá.
— Não, com certeza, não, — disse Lourenço, enquanto procurava algo numa gaveta. — Não estou encontrando aqui… queria lhe mostrar uma reportagem que guardei. Bem, não estou achando. Mas o 81 está vazio, já faz uns três meses. Quem morava lá era o seu Bené. Ebenezer Geist da Silva.
— E esse Moacir, mora com a família? — perguntou Mateo, já saindo pela porta.
— Ele mora com a mulher e a filha. Quase não sai de casa.
Em São Sepé, lá pelas onze horas, Andressa embarcou.
Em Porto Alegre, pontualmente às 17h30, Mateo dispensou seus alunos e encerrou sua última aula. Checou o celular enquanto se dirigia para a parada de ônibus. Dentre as mensagens, uma de Andressa: “Tudo certo, mas a viagem atrasou um pouco. Devo chegar em Porto Alegre lá pelas seis. Acho que as sete já estaremos juntos. Beijos, meu docinho”. Era até melhor. Assim estaria em casa para recebê-la. Apesar da chuva intensa, vento forte e trovoada, a lotação atrasou só quinze minutos. Sem guarda-chuva, Mateo buscava em vão se abrigar embaixo das poucas marquises do trajeto restante até o edifício. Não encontrou Lourenço na portaria, então recuperaria as chaves depois.
Ao chegar à porta de seu apartamento, um falatório miúdo chamou a atenção dele. Andressa já teria chegado? Abriu a porta e viu que o som vinha da TV. Não lembrava de tê-la deixado ligada. O assoalho, ao longo da janela, era um espelho molhado, enquanto as cortinas chicoteavam ao sabor da brisa gelada. Mateo, sentindo o frio nos ossos, fechou a porta de entrada. Estava a caminho da janela quando a campainha tocou. Finalmente!
Voltou à porta e a abriu de uma vez. O vento assoviou e escapou, furioso.
Ninguém.
Nem teve tempo de refletir sobre quem teria tocado a campainha, quando a porta do corredor bateu. Gritos vindos de cima irromperam dolorosamente, misturando-se ao ruído opaco da chuva. Um trovão estourou e as luzes tremeluziram. Mateo entrou e fechou a porta. Andressa estava demorando mais do que ele esperava… é melhor resolver isso antes que ela chegue. Foi até o quarto e apanhou a arma. Saiu e subiu pelas escadas, atropelando os degraus.
Nesse momento, enquanto Mateo sobe, deixemos ele por um instante. Sigamos Andressa, que chegava ao edifício e, conforme combinado, recebia as chaves de Lourenço. Ele, para agradar a nova moradora, entrega-lhe um recorte de jornal.
— Entregue ao doutor Mateo, por favor. É sobre um morador do prédio. Ele vai entender.
No oitavo andar, Mateo chutou a porta corta-fogo e lançou-se ao 81. Dessa vez, raios luminosos escapavam por debaixo da porta. Com a mão esquerda, esmurrou três vezes na porta; com a outra mão empunhava a pistola, apontada para o piso.
Outro clarão explodiu pelo corredor. Lamentos berrados arranhavam seus tímpanos.
Mateo, respirou rápido três vezes, buscou coragem e testou a maçaneta. Estava aberta. Entrou e custou a entender a cena. O apartamento se mostrava completamente vazio. Não havia vento. As janelas deveriam estar fechadas. Com a arma em punho, ligou as luzes da sala para confirmar o que seus olhos anteciparam na penumbra. O ar era pesado, úmido, cheirando a banheiro sujo e flores mortas. Foi até os quartos e, com as mãos escorregadias, abriu as portas de cada um dos três quartos. Nada.
Ao voltar para a sala, porém, percebeu alguém saindo pela porta de entrada. Era o velho.
— Pare! — gritou.
O homem não parou. Mateo mergulhou atrás dele escadaria abaixo, chegando aos tropeços ao sétimo andar. Parou de respirar ao ver a porta do 71, seu apartamento, entreaberta. A coragem inflamou seus músculos e Mateo avançou como um felino em direção à porta.
Ao entrar, deparou-se com a assombrosa ousadia do miserável: ele estava na sala. Na sala de Mateo. Sorrindo, com os braços abertos, o velho veio em sua direção.
— O que é isso, meu docinho. — disse o canalha, cínico.
Mateo disparou. Uma, duas, três vezes.
Um relâmpago rebentou em clarão e o estrondo veio em seguida. As luzes apagaram. Onde está Andressa? As luzes reascenderam e o quadro, pintado pelo demônio, mortificou Mateo. O corpo caído no chão, cravejado com três balas no peito, não era de um idoso, mas sim, de Andressa.
Difícil dizer por quanto tempo Mateo permaneceu imóvel, diante do corpo morto da noiva. Caiu sobre os joelhos, largou a arma e a abraçou, com a delicadeza do pai que toma seu bebê no colo pela primeira vez.
Fechou as pálpebras dos olhos dela e retirou o recorte de jornal que ela ainda segurava. Tremendo, concentrava-se em decifrar as letras embaralhadas do noticioso. A matéria ostentava, em letras grandes, a manchete: “Homem conhecido por Bené é encontrado morto em apartamento. Caderno póstumo revela crime ocorrido há cinquenta anos”. Duas fotos ilustravam a matéria: a primeira mostrava a moça, de batom púrpura. Na outra, o velho, debochando da cara de Mateo.
Mateo amassou a folha com o punho cerrado. Beijou a noiva em despedida e juntou a pistola do chão. O rosto banhado em lágrimas não era desespero, mas inabalável cólera.
Maldito. Te matarei no inferno.