Conto
Um por Cento
October/2025
Paulo Carbonera
Um por cento da população mundial é naturalmente ruiva.
Esse inútil dado estatístico atravessa minha vida de dois modos. O primeiro é fácil: sou ruivo. Ou, como diria Cadu, meu ex-amigo: não passo de um viadinho sardento. Agora, para que tu entendas o percentual, só conhecendo a história.
Reunidos em torno da velha mesa, comprada de segunda mão, eu, Cadu e D’Angelo discutíamos animados nosso projeto final do curso de Ciências da Computação. Mais que colegas de faculdade, éramos amigos desde o último ano do ensino médio, em Caxias do Sul. Naquela época, decidimos morar juntos em uma república.
Faltava quase dois anos para a formatura, mas, já tínhamos planejado nossos rumos acadêmicos e profissionais: jogos eletrônicos. Os três amigos inseparáveis, seriam sócios.
— O nome poderia ser CD&D Fellows: Cadu, Dante e D’Angelo. O que acham? — disse Cadu. — D’Angelo torceu o nariz. Eu, achei o nome fraco. Mas como discordar do sorriso encantador de Cadu?
Argumentei que, para chegarmos à empresa, primeiro tínhamos que ter um jogo matador. E o Elder Strike, nosso jogo, que reunia a dinâmica dos jogos de tiro em terceira pessoa com os mundos imersivos de RPG, reunia os ingredientes certos para decolar. Fernando, um veterano que frequentava nossa república, dizia esperar pelo dia em que íamos dar festas regadas a Moët & Chandon.
O ano de 2020 não tardou a chegar. E em março, a pandemia nos alcançou.
As aulas remotas tornaram-se a regra e, por unanimidade, decidimos nos afastar. Seria por poucos meses. Como nenhum de nós era de Caxias, fechamos o apartamento e cada um voltou para sua cidade. Retornei à São Sepé com ideias na cabeça, um laptop a tiracolo e incertezas no coração.
No início, tudo correu muito bem. Trabalhamos como loucos e as reuniões remotas eram produtivas.
D’Angelo voltou ao nosso apartamento uns trinta dias depois. Ficarei sozinho mesmo, ele nos disse. Vou acelerar a integração que o Dante começou. Realmente será nosso pulo do gato.
Dias depois, D’Angelo mandou mensagem: “galera, preciso de vocês aqui. Só pode ser no presencial”. Apesar do mistério, recusei. Cadu também.
Na reunião on-line de quinta, D’Angelo voltou a insistiu em nossa presença em Caxias. Tentamos convencê-lo a tratar do assunto no remoto, sem sucesso. É uma oportunidade única, ele dizia. Eu e Cadu mantivemos a negativa. O medo da contaminação ainda era maior do que nossa curiosidade. Impaciente, ele nos deu prazo até a semana seguinte: se não vierem, vão se arrepender.
No sábado, porém, outra mensagem: “larguem tudo e venham hoje”.
Respondi que só iria na quinta. Cadu decidiu ir. Eu soube depois, que Fernando, o veterano, também esteve no encontro.
Na quinta, coloquei duas máscaras na cara e peguei um ônibus para Caxias. Cheguei ao apartamento meia hora depois do horário combinado. Ao entrar, me deparei com eles já reunidos ao redor da mesa. Fernando também se fazia presente.
Quando puxei uma cadeira e me sentei, o silêncio se instalou, breve, prestes a ser rompido. Fernando mexia nuns papéis, D’Angelo coçava a orelha e Cadu evitava meu olhar.
— Você está fora, — disse Fernando.
Boquiaberto, controlei minhas primeiras reações. Uma dor sufocou-me o peito e a instantânea sensação de impotência cozinhou minhas entranhas em banho maria.
— Não foi por falta de avisos — disse D’Angelo, simplificando a questão para ele.
Calei. Meu olhar atravessou cada um deles. Fernando era vitória. D’Angelo, mantinha a segurança dos pragmáticos. Em Cadu, senti o arrependimento tardio dos covardes.
Era isso. Eu não fazia mais parte do jogo e Fernando assumira meu lugar. Até o registro da empresa fora providenciado: CD&F Games. O mais irônico foi que me ofereceram um por cento da sociedade, como forma de reconhecimento. Um por cento. Os demais, ficariam com 33%. Coube a D’Angelo fazer o anúncio:
— Não esquecemos de você.
— Enfiem esse um por cento no cú. — Foi o melhor que pude dizer.
Voltei para São Sepé e tomei uma série de decisões equivocadas, movidas pela decepção. Ferido de morte, tranquei a faculdade e fui para Porto Alegre, sem planos definidos. Morei de favor com as pessoas erradas, na hora errada. Quase sem dinheiro, por uma semana tive os moradores de rua como meus companheiros de morada. Até ser preso, em flagrante, furtando três barras de Milka meio amargo no Bourbon do Aeroporto.
Envergonhado demais para pedir ajuda à família, fui transferido para o Complexo Prisional de Canoas, já que o Presídio Central estava mais do que lotado. Na estadia forçada, fui agraciado com uma amostra grátis do inferno. Escapei do estupro graças ao Abel, um presidiário respeitado pelos pares.
— Vou te proteger, ruivo —ele dizia. — Eu e Abel ficamos amigos na prisão. Enquanto eu lhe falava sobre tecnologia e outras nerdices, ele me ensinava acerca do mundo. Inclusive, sobre plantas exóticas e suas propriedades farmacológicas, com a autoridade de um botânico, que ele afirmava ser.
Além da proteção, Abel deu-me um cartão de visitas. Não o dele, mas o de uma mulher: Mercedes. “Mercedes - Festas e Eventos”. Procure ela quando sair daqui. Ela vai te ajudar.
Saí, após três meses de cana. A liberdade cheirava fumaça de ônibus e lançava-me olhares atravessados. Voltei para Porto Alegre com fome. Perambulando pelo Mercado Público, a falta de dinheiro não tardou a impor sua dura presença. A opção menos humilhante fora procurar Mercedes.
— Você tem mãos de garçom, — ela disse. — Diferente dos candidatos que costumo receber.
O negócio de Mercedes, do ramo de festas e buffets, começou pequeno, mas crescia e ela já atendia a eventos de certa envergadura. Ainda assim, ela continuava empregando ex-presidiários, como eu. Eu presto um favor à sociedade, ela costumava dizer.
Aceitei o emprego e o baixo salário. Larguei as drogas, a bebida e até o cigarro. Quem usa drogas não trabalha comigo, era um dos mantras de Mercedes. Progredi no trabalho e fui ganhando a confiança dela. De Auxiliar de Garçom, passei a Líder de Equipe, Maître, Bartender e, finalmente, Sócio.
E é exatamente isso que me traz aqui hoje, à comemoração do décimo aniversário da CD&F Games. Eles festejando e eu trabalhando. Às vezes gosto de voltar à agitação das festas e atuar como Bartender. Dei folga para Abel, nosso titular do bar. Isso mesmo. Quando Abel foi solto eu o contratei. Hoje rimos da época da prisão. Ele confessou que me protegia porque queria me comer. Já desistiu. Sabe que não faz meu tipo.
Daqui detrás do bar, consigo ver o salão. Cadu, D’Angelo e Fernando dividem a mesa central, que ostenta arranjos arqueados de astromélias e margaridas. Bebem whisky com guaraná e riem alto. Fernando, acompanhado por um bibelô que chama de namorada, fuma charuto. Clichê. D’Angelo, com a Júlia, sua terceira esposa, alterna-se em consultar as horas e responder aos outros de forma lacônica. Cadu está sozinho. Ganhou alguns quilinhos, mas o sorriso de menino continua encantando a todas e a todos. Volta e meia ele olha em direção ao bar, mas não me reconhece. Além da toca de barman, agora uso bigode e cavanhaque; pretos nessa noite, por precaução.
Pego a garrafa de champagne previamente reservada. Já servimos mais caras, mas hoje, essa Moët & Chandon Brut Impérial tem um significado especial. E será por conta da casa. Retiro o lacre de arame e, com precisão, pressiono a rolha de cortiça contra o gargalo. Giro a mão, lentamente, e retiro o vedante, deixando escapar o mínimo possível do gás que sobe em borbulhas. A bandeja, a espera no balcão, já conta com três taças estilo flute, ideais para manter a perlage da bebida viva e concentrada.
No ócio da prisão, Abel também me ensinou sobre as Lágrimas de Anhangá. Um líquido incolor, extraído de planta noturna que floresce em cavernas da Chapada dos Veadeiros. Suas pétalas exalam um odor adocicado, mas o verdadeiro perigo está na seiva cristalina, que escorre em lágrimas pelo caule. Na concentração errada, é fatal.
Sirvo o espumante, a três quartos, e chamo o garçom para servir a mesa dos anfitriões. Cadu vira o olhar, novamente em minha direção. Espero.
Ele não me enxerga.
Um por cento.
Um por cento, é o limite das Lágrimas de Anhangá.