Crônica
O Triunfo do Ódio
October/2025
Paulo Carbonera
Quatro mãos enluvadas carregam um corpo morto, rebocado pelas ruas tal qual rês abatida. Cobrindo parcialmente o corpo do jovem, um lençol branco se arrasta pela via, soando como um véu de macabra união. Apoiado pelas mãos da sociedade, aquele corpo odiado não tinha meios nem recursos para se defender.
A imagem, registrada em vídeo, é acompanhada por áudios que revelam — senão o local exato, ao menos o país onde a barbárie se deu: Brasil.
Com isso em mente, pode ocorrer uma conclusão apressada que atribui ao nosso país a pecha de violento, o que, de fato, ele é. Contudo, é preciso fazer justiça e observar que o fenômeno é mundial e não é privilégio dos tempos em que vivemos.
Ontem mesmo, recebi por e-mail um pedido de engajamento em um protesto e de busca por justiça, devido à ação de um grupo neonazista, composto por aproximadamente cinquenta homens.
Eles atacaram e agrediram violentamente mulheres e anciãos em meio a um ritual religioso, deixando pelo menos quatro pessoas com graves ferimentos na cabeça. A polícia, embora monitorasse o previsível ataque, chegou tarde, quando os agressores já haviam fugido. Esse fato, ocorrido em Camp Sovereignty, nos arredores de Melbourne, Austrália, poderia perfeitamente ter acontecido por aqui, debaixo das barbas das autoridades.
Todos os dias — e isso só percebe quem busca as informações, porque a nossa mídia tradicional não faz questão de mostrar — dezenas de homens, mulheres e crianças morrem no território ocupado por Israel, na Faixa de Gaza. Morrem de bala, explosão ou doença, ou então por falta de água potável e comida. Você pode escolher o método do genocídio.
Como todos sabemos, o morticínio é operacionalizado pelo exército de Israel, mantido com o dinheiro do contribuinte daquele país e também do contribuinte estadunidense, que deixa suas digitais impressas nos mais de sessenta e sete mil corpos assassinados.
Uma pessoa LGBTQI+ é morta violentamente a cada 32 horas no Brasil. A estatística é de 2022, mas mantém-se morbidamente atual.
Em 2017, a travesti Dandara dos Santos morreu aos 42 anos após ter sido espancada até a morte em Fortaleza, à luz do dia. O crime só ganhou repercussão porque foi divulgado nas redes sociais. O vídeo tem 1 minuto e 20 segundos e termina quando os agressores colocam a vítima em um carrinho de mão e descem a rua. Segundo a polícia — que, mais uma vez, chegou tarde — depois dessa gravação o grupo espancou a travesti até a morte.
Em julho de 2025, a mídia noticiou o caso da morte do jovem negro Guilherme Dias Santos Ferreira, em São Paulo. Após o assassinato, a Polícia Civil concluiu que Guilherme não tinha envolvimento na abordagem e foi atingido ao sair do trabalho. O policial militar envolvido no disparo, Fábio Anderson Pereira de Almeida, foi afastado do serviço operacional e chegou a ser preso em flagrante por homicídio culposo, mas foi liberado após pagar fiança.
Mas o que todos esses crimes odiosos têm em comum?
A resposta óbvia é o ódio: o ódio religioso, ungido pelas doutrinas da fé; o ódio às liberdades sexual, de gênero, do corpo feminino; o ódio ao diferente, à outra raça, à outra cultura ou mesmo à outra nação. Essa é a resposta óbvia.
Contudo, todos esses preconceitos e discriminações se materializam como violência exatamente quando as vítimas sofrem do mesmo mal: a pobreza. Todos os ódios humanos contra a alteridade se realizam, de maneira social, quando o indivíduo agredido não tem meios para se defender.
Um cidadão LGBTQI+ que trabalha na Rede Globo, por exemplo, certamente não teria o mesmo fim que a travesti Dandara.
O homem negro, executivo da indústria financeira, jamais seria vítima da violência policial enquanto circula pelos bairros nobres de São Paulo a bordo do seu carro blindado. Pelo contrário: a mesma Polícia Militar que assassinou Guilherme Dias Santos Ferreira se encarregaria de protegê-lo.
A agressão por intolerância religiosa na Austrália teria sido levada a cabo por um único indivíduo — mesmo que tomado pelo ódio?
Se os poderosos Estados Unidos apoiassem, de modo incondicional, financeira e belicamente, um provável e necessário Estado Palestino, em detrimento de Israel, é exagero imaginar que este último se tornasse a vítima dessa relação conflituosa?
Vivemos em um mundo no qual quem estiver em situação de poder — as elites — violenta os demais, tanto mais quanto estes forem marginalizados e desamparados no contexto em que estiverem inseridos.
As Forças Armadas, a polícia, ou qualquer outro braço armado dos Estados, protegem os donos do dinheiro e reprimem os já enfraquecidos. A fragilidade e vulnerabilidade das vítimas da violência de ódio denotam que o agressor é, antes de tudo, um covarde.
O ódio da Casa-Grande (aqui me inspiro em Jessé de Souza), portanto, não triunfa apenas sobre o diferente, mas principalmente sobre a Ralé — o alvo de toda a violência sistêmica na sociedade.
Mas voltemos ao Brasil.
Vamos observar a imagem do jovem morto, arrastado pelas mãos enluvadas dos policiais militares.
Era o corpo de um homem jovem, dava para ver.
Talvez não muito jovem; talvez não muito homem; talvez não fosse tão preto, ou mesmo não tão mestiço.
Mas era pobre.
Ah, isso ele era.