Conto
Memórias Póstumas do Porco Selvagem
December/2024
Paulo Carbonera
Aos alunos que primeiro beberam da minha sabedoria dedico como lembrança estas memórias póstumas.
Porco Selvagem
Já nasci porco.
Por muitos anos, ocupei-me em atividades espúrias e ignóbeis. Fui astrólogo, filósofo autoproclamado e até me filiei ao Partido Comunista do Brasil, o PCB.
Renego toda essa porcaria.
Distanciado dos princípios morais tradicionais, encontrei tardiamente a verdadeira fé, algo que mascarou minha essência aos olhos profanos. As pessoas me viam como um ser humano comum e não como o varrasco que sempre fui. Se engana, porém, quem pensa que sou porco de granja, cheio de vacinas e não me toques. Sou porco livre, indômito, sem amarras nem freios. Sou porco selvagem.
Descalço, agora sigo a fila dos mortos, todos nós vestindo camisolões brancos, que balançam ao sabor da brisa fria do lugar. A calçada é feita com pequenas pedras irregulares no estilo petit pavê, consagrado em Copacabana.
Avançamos a passos lentos. Os outros mortos, desanimados como funcionários públicos, se arrastam fazendo corpo mole. O caminho é estreito e no lugar das paredes, ergue-se apenas a profunda escuridão. Cogito estar no o purgatório, mas não creio; os portões dourados do céu aguardam por mim.
O leitor atento deve se perguntar como diabos eu consigo escrever morto. Serei eu um porco escritor ou um escritor porco? Respondo ao leitor atento que isso não é da conta dele. Apenas leia e não faça perguntas bobas.
Nesse ponto, preciso dizer que, ao contrário do Machado (que é superestimado), não tenho tempo pra lero-lero e prefiro ser direto e conciso, afinal, escrevo essas reminiscências enquanto marcho por esta vereda perdida no limbo. Além disso, hoje em dia ninguém quer ler a porra de um romance muito longo ou calhamaços inúteis.
— Poderia falar mais baixo? — pergunta a morta à minha frente, virando o pescoço para mim. Serei obrigado a interagir com essa mulher. Uma velha de cabelos grisalhos, compridos e ondulados, com uma boca enorme, ainda por cima pintada de um batom vermelho vulgar.
— Falar mais baixo é o cacete — digo para ela, colocando-a em seu devido lugar. Ela emudece, e sua cara de choro fica ainda mais feia.
— Qual o seu nome? — a velha pergunta, virando-se para mim novamente.
— Porquê tu quer saber? Vira pra frente e não me enche o saco.
Ela se vira, e eu sorrio, baixinho.
Aliás, não direi aqui meu nome de batismo. Meus ensinamentos são para poucos; a ralé não merece me ouvir. Contudo, se você for um dos meus, sentirá um quentinho no coração e, no decorrer dessa preleção, me reconhecerá. Deixei no mundo dos vivos uma legião de seguidores a alguns discípulos, aptos a espalhar minha palavra (ouso pensar na posteridade).
Sinto toques. Sim, alguém cutucou meu ombro. Olho para trás. É um homem negro, sinalizando com o dedo indicador em frente à boca. Ele se aproxima e um cheiro doce de pólvora me invade as narinas. É jovem, alto e seu olhar é ameaçador. Ele diz que eu estou tumultuando a fila. Respondo que falarei mais baixo. É bom tomar cuidado nessa exótica caminhada. Por sinal, ao longe, já se vê alguma claridade. Aperto os olhos e percebo algumas silhuetas flutuando ao largo da fileira de desencarnados.
Por falar em gente morta (ou que deveria estar), a imagem da reencarnação da Meretriz da Babilônia tomou-me de assalto. Lembro-me com prazer do dia em que a escorraçamos direto para o esgoto da história. Lamento apenas pelo câncer: ineficaz, falhou em seu único e justo propósito.
— Escuta, o senhor não vai parar? — É a velha cabeluda da minha frente, resmungando com a voz aguda e esganiçada. — Sei de quem você está falando! Eu gostava dela, viu.
— Tu só pode ser de esquerda? — respondi. — Aposto que é, com essa cara de riponga escrota.
— Vai se olhar no espelho, seu nojento — ela disse, e virou-se para frente.
Deu vontade de dar uns bons safanões naquele frágil pescocinho de galinha. Essa desgraçada ainda vai me tirar do sério. Esquerdista tem que levar porrada, apanhar mesmo. Por isso que não perdoo aquele capitão de merda. Falava muito e fazia pouco. Chumbo e cadeia para essa corja de gays, ateus e abortistas.
Curioso. Agora me dei conta que seguro uma folha de papel. Aliás, todos defuntos tem uma. Parece até uma cédula eleitoral, intitulada “A escolha da sua vida”. Há duas opções: Céu e Inferno. Hum, entendi. E os ateus malditos, duvidando do Inferno. Só não sei como preencher esse formulário, já que ninguém tem lápis ou caneta.
Nos aproximamos da luz e consigo ver com clareza os seres que flutuam à nossa frente. Eles são enormes, devem medir uns três metros. Na verdade, eles não flutuam; eles têm asas e podem voar. São anjos.
Ao final a via se divide em uma bifurcação, onde um anjo ocupa uma cadeira elevada. Cada um dos mortos tem uma breve conversa com ele. Depois, alguns tomam o caminho da esquerda, que leva a um grande portão; outros vão pela direita, chegando a outro portão, exatamente igual ao primeiro.
Parece que logo será minha vez. Não sei se poderei escrever a partir do Céu, então é melhor tratar logo da minha morte. Posso dizer que foi uma merda, como todo falecimento. Lembro dos remédios, dos tubos e da falta de ar; mas parti de coração leve e com a certeza da missão cumprida. Selva!
Opa. A riponga vai ser chamada. Quero ver isso de perto.
—Tu não foste má pessoa — inicia o anjo, que não é alto como os outros. Ergue-se na estatura de um homem comum. A voz dele também não é como eu imaginava. Aguda demais, algo feminino. Aliás, esse anjo é todo esquisito. Apesar dos olhos bem azuis, os cabelos são longos e pretos, a pele parda, como a de um índio. Ele usa brinco na orelha esquerda e seu rosto é tão belo e delicado como o rosto de uma gueixa. Ele continua:
— Deste uma boa criação ao teu filho, apesar da má influência da tua esposa.
Misericórdia. Além de tudo é sapata!
— Deixe-me ver qual foi tua escolha — diz o anjo.
A mulher, ergue a cabeça, tardiamente arrependida, e entrega a cédula ao anjo.
Ele sorri:
— Vejo que escolheste o Céu. Muito bem, siga pela esquerda.
A mulher suspira e segue rumo ao grande portão, agora tomado por intensa luz.
— Puta que pariu! — Não aguentei. Como assim, “deixe-me ver qual foi tua escolha”.
O anjo vira e me observa, impassível.
A garganta resseca e não ouso perguntar que espécie de tribunal concede ao réu a prerrogativa de lançar o veredito.
— Aproxime-te — diz o anjo.
Avanço mais três passos. Uma força pressiona meu queixo para baixo, mas resisto e desafio o porte gracioso daquele ser angelical. Sinto seu perfume, cítrico e almiscarado. Seus impensáveis olhos azuis, como mar revolto, me enrubescem a face e põe meu corpo a tremer.
— Tu não foste uma boa pessoa, — limitou-se ele a dizer. — Contudo, não cabe a mim decidir.
Tento falar, mas calo e me submeto. Porém, ainda farejo esperança.
— Deixe-me ver qual foi tua escolha — diz o anjo.
Hesito, grunhindo. Devagar, estendo a mão com a cédula, supostamente imaculada.
O anjo se aproxima, pega a cédula, que queima em suas mãos.
Ele sorri.
Sorri como quem vê a maçã cair da árvore mais uma vez.