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Crônica

As pessoas acidentalmente felizes

November/2025

Paulo Carbonera

Naquele dia, ela sentia-se especialmente poderosa. E também particularmente inspirada.

Fora-lhe oferecido de comer e de beber, mas todo o alimento de que precisava já tinha em si. Sentia-se completamente cheia. Cheia de si, cheia de luz, cheia. Tão cheia que precisava extravasar, explodir para o mundo toda aquela incabida radiância.

E o que seria melhor do que criar uma nova pessoa? Uma daquelas pessoinhas que ela depois poria nas brincadeiras de faz de conta. Não precisava cuidar do cenário; esse já estava pronto. Precisava, isso sim, das pessoinhas. Os animais ela já os fizera muitos: cachorros, baleias, pássaros e até aranhas. Lembrou-se de quando aprendera a criar patos: bastava desenhar o número dois, completar o corpo, arrematar com os olhinhos e voilà — eis o patinho.

Preparou-se, então. O cavalete, a tela branca e o colorido — que eram as tintas. Muitas tintas. Tinha todas as cores do arco-íris e ainda algumas além, todas devidamente ordenadas na sua orgulhosa paleta.

Pegou o lápis.

Espera. É melhor planejar antes de começar, pensou. A nova pessoinha seria alta ou baixa? Gorda ou magra? Talvez nem magra nem gorda; nem baixa nem alta. Os cabelos poderiam ser lisos ou encaracolados. Não — seriam cacheados.

E então ela desenhou.

Como já não era a primeira vez, seus traços saíram melhores. Mais decididos; mais seguros, diria o professor de Belas Artes, caso ela tivesse um mestre. E os traços se mostravam belos. Mais belos que da última vez — e que de todas as vezes anteriores. E ela ficou feliz. Feliz e ainda mais radiante. Com luz e felicidade, dedicou-se aos detalhes. Aproximou o rosto da tela e caprichou nos dedos das mãos, cinco em cada uma. Fez o mesmo com os pés. Ao chegar ao rosto, demorou-se muito — mas muito mesmo nos olhos, boca e nariz, mas não esqueceu das orelhas que, se não restaram perfeitas, ao menos não ficaram de abano.

E então contemplou e achou que estava perfeito.

Espera — faltavam os coloridos.

Ela já tinha pintado pessoinhas de várias cores. Pretas, brancas, marrons, amarelas, cor-de-rosa e tantas outras. É verdade que, das pretas, logo desistira, pois a pintura se confundia com os traços. O branco era ruim também: era o mesmo que não pintar nada, como colorir com uma não cor. Mas, graças à sua paleta, tinha todas as outras.

Pegou o pincel.

Com a outra mão, ergueu a paleta.

Ficou tão em dúvida… não sabia se a pessoinha seria verde ou vermelha; laranja ou azul; roxa ou amarela. Tão nervosa estava — tão cheia de potência de agir — que o pincel lambeu, desajeitado, todas as cores da paleta e, ainda assim, deitou na tela e pincelou a pessoinha. E a pessoinha ficou multicor; meio tutti-frutti, completamente arco-íris.

E então ela a enxergou.

E percebeu que não fora um erro.

Fora um pequeno acidente feliz.