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Resenha

Resenha - O Nome do Vento

November/2025

Paulo Carbonera

Li O Nome do Vento (As Crônicas do Matador de Rei, vol. 1) pela primeira (e única) vez no segundo semestre de 2012. Confesso, contudo, apesar de nenhuma releitura completa, lancei mão dele várias vezes para reler trechos que foram inspiração para mim.



Esse livro marcou minha reentrada definitiva no universo das leituras de fantasia. Há livros que nos pegam pela história, outros pela escrita, outros ainda pelo protagonista. O romance de Patrick Rothfuss faz tudo isso ao mesmo tempo. É uma narrativa que seduz pela atmosfera, pelo lirismo e pela habilidade de transformar um mundo inventado em algo estranhamente familiar — um espelho fantástico com símiles e ecos do mundo real.

A estrutura do romance alterna duas vozes: nos interlúdios, a narrativa segue em terceira pessoa na estalagem onde Kvothe, o protagonista, se esconde sob o nome de Kote; no corpo principal, predomina a primeira pessoa, quando ele decide contar sua vida a um Cronista. Esse jogo de vozes cria ritmo e profundidade, permitindo que o leitor descubra o passado do protagonista enquanto sente o peso do seu presente.


Minha história dentre todas as coisas é de sofrimento - eu vivi muitas coisas, fiz muitas coisas; se você quer escutar minha história, sente-se, vou contá-la em 3 dias.”


A trajetória de Kvothe — da infância em uma trupe itinerante, passando pelas dificuldades quase insuportáveis em Tarbean, até seu ingresso na Universidade — é contada com uma prosa de musicalidade inconfundível. A escrita de Rothfuss é, ao mesmo tempo, elegante e exigente. Não é um livro para leituras apressadas; pede atenção, porque recompensa com beleza, cadência e pequenos momentos de epifania. Há poemas, canções e trechos voltados à tradição oral, numa herança clara de Tolkien, mas com uma personalidade própria.

Kvothe é um protagonista complexo. Carismático e dono de talentos extraordinários, desperta fascínio — mas também críticas legítimas, por vezes lembrando o arquétipo de um “Mary Sue”, sempre habilidoso e raramente derrotado de maneira significativa. Ainda assim, sua voz narrativa é tão envolvente que o acompanha-se sem esforço. Denna, por sua vez, é uma presença fugidia: livre, quase inatingível, figura como grande ponto de tensão emocional do livro, ainda que não se encaixe no molde tradicional de par romântico. Entre os coadjuvantes, Bast é o companheiro encantado e misterioso dos interlúdios. Nomes como Auri, Simmon e Willem contribuem para o charme da Universidade, mesmo que às vezes apareçam menos do que poderiam. Já Ambrose, o antagonista mais evidente, funciona mais como recurso narrativo recorrente do que como uma ameaça realmente profunda.

Perigos féricos como o temível grupo Chandriano e a ninfa Feluriano são apresentados em passant e somente são explorados no segundo livro da série, O Temor do Sábio.

As citações mais memoráveis reforçam os temas que o romance explora: o medo e sua sabedoria, a dignidade dos marginalizados, o poder estruturante das histórias e a entrega quase devocional à música. São reflexões que elevam o livro para além da aventura, trazendo uma camada filosófica que dialoga diretamente com o leitor.


“Há três coisas que todo homem sensato deve temer: o mar durante a borrasca, as noites sem lua e a ira de um homem gentil.”



“Chame um plebeu de plebeu, diga pão, pão, queijo, queijo; mas sempre chame uma prostituta de senhora. A vida delas já é difícil o bastante, e ser educado nunca fez mal a ninguém.”



"A música é uma amante orgulhosa e temperamental. Recebendo o tempo e a atenção que merece, ela é sua. Desdenhada, chega o dia em que você a chama e ela não responde. Por isso comecei a dormir menos, para lhe dar o tempo de que ela precisava."


Todas parecem condensar a alma do romance: intensidade, lirismo, sabedoria e um profundo amor pela arte — seja ela música, narrativa ou tradição oral.

Em síntese, O Nome do Vento é uma obra que encanta pela forma e pelo conteúdo. É fantasia para quem gosta de mundos ricos e personagens maiores que a vida, mas também para quem aprecia uma prosa cuidadosa, lenta quando precisa ser; marcada por ritmo e textura. Para mim, foi um retorno luminoso ao gênero, um daqueles livros que ficam ecoando anos depois de encerrada a última página.