Conto
Téo e a Sereia
December/2025
Paulo Carbonera
Pensei em gritar, pedir socorro ao Beto, mas o amor-próprio encharcou o berro de água salgada.
Quando, finalmente, o instinto de sobrevivência veio à tona, já era tarde. Em firmes e ritmadas braçadas, Beto se afastava rápido demais, abrindo caminho até a boia branco-alaranjada que teimava em manter-se inalcançável, como se fugisse em direção ao mar aberto. Era preciso manter a calma; esse era o mantra dos últimos dois minutos.
Girei o corpo em direção à faixa de areia. A construção branca do hotel se mostrava menos imponente e os guarda-sóis, pequenos pontos coloridos cintilando sob o sol a pino. Um daqueles pontinhos, em degradê azul, era o guarda-sol de Flora e Tiaguinho. Com três enérgicas respirações, afastei memórias que irrompiam avassaladoras: momentos perdidos em função do trabalho, egoísmos bobos e birras que agora não faziam sentido. Tomei coragem e submergi em posição vertical esperando tocar com os pés no chão. Voltei à superfície e recuperei o fôlego sem sentir a aspereza da areia da praia. Pela primeira vez, a possibilidade de tudo terminar assim pareceu-me real. Real e estúpida — como fora estúpida a ideia de nadar até a boia da Marinha.
Dói admitir que as coisas poderiam ter sido diferentes. Tudo começou ontem, lá pelas duas da tarde.
Quando Flora pousou o livro na mesinha de madeira e arrumou os óculos de sol no nariz, eu logo percebi o foco de sua atenção.
Estreitei os olhos e tentei identificar o dono daquele sorriso, emoldurado por um rosto incomodamente lindo, que saía da beira da praia e vinha em nossa direção. Ao lado do guarda-sol, com seus baldinhos e pazinhas de plástico, Tiaguinho, nosso filho, caprichava em esculpir os detalhes do castelo de areia que tínhamos acabado de construir.
Protegido pelos óculos escuros, enquadrei novamente o sujeito que seguia se aproximando. O corpo, esculpido em bronze, movia-se tapado apenas por uma sunga furta-cor — como escamas de peixe que, em ondas coloridas, refletiam a luz do sol das duas da tarde.
— Você conhece ele? — perguntei, virando apenas os olhos para ela.
— Acho que é o Beto — ela respondeu, aguardando pela inevitável abordagem.
Beto. Sim, o Beto. O cara que Flora namorou por dois anos, antes de nos conhecermos. Ela terminou com ele. O motivo? Traição.
Beto chegou e parou com seu abdômen salpicado de gotículas de água bem à nossa frente.
— Flora! Eu não acredito — disse ele, com as mãos na cintura e uma cara de criança na frente do Papai Noel.
Flora se levantou da cadeira, tirou os óculos e, fingindo espanto, perguntou se ele era o Beto. Permaneci sentado, em meio a risonhos “meu Deus”, “não pode ser” e “nem acredito”. Ele se aproximou e estendeu a mão e ela o cumprimentou com um beijo no rosto. Ele se desculpou por estar todo molhado após os seios dela roçarem em seu peito.
Eles se olharam por mais algum tempo, risonhos, até que Flora se virou para mim e disse:
— Esse é meu marido, Téo.
Eu me levantei e Beto se apressou em vir me cumprimentar:
— Opa, tudo bem Téo?
Cumprimentei-o com um aperto de mão, não respondendo à pergunta, pois a resposta seria que não, não estava tudo bem. Eu, que só queria esquecer minha rotina e curtir as férias, tinha que lidar com o ex-namorado gostoso da minha esposa.
Flora o convidou para sentar junto ao nosso guarda-sol e ele prontamente aceitou. Mencionei buscar outra cadeira de alumínio, mas ele, sem cerimônias, sentou-se na areia, abraçando os joelhos. Abri o isopor e peguei mais uma latinha:
— Beto, vai uma gelada?
— Obrigado, cara, eu não bebo — disse ele virando a cabeça para o mar. — O corpo é nosso templo, como dizem. E o mar é um deus exigente.
Larguei meu copo Stanley na mesinha e não pude evitar a comparação do meu corpo como o dele. Não que eu estivesse mal fisicamente, mas aquele cara elevava o sarrafo para outro nível.
— E então. Vocês já conheciam a nossa praia ou é a primeira vez? — perguntou Beto.
Não conhecíamos. Era a primeira vez que nos hospedávamos naquele hotel, que contava com um pedaço de areia exclusivo. Flora elogiou o local e perguntou por que ele chamou o lugar de “nossa praia”.
— Você é dono do hotel? — emendei a pergunta, temendo uma resposta positiva.
— Não — disse ele, rindo. — Eu trabalho aqui. Sou salva-vidas. Hoje é meu dia de folga.
Ao passo que aquilo explicava o corpo incrivelmente em forma (que ele exibia com poucos pudores), o tema “salva-vidas” tornou-se o assunto dominante entre nós, ganhando ares de heroísmo e rebaixando minha profissão de farmacêutico a algo naturalmente insignificante. Tentei fazer uma graça, argumentando que eu, dono de uma rede de farmácias, também salvava algumas vidas, afinal, não vendíamos somente aspirinas, antiácidos ou pastilhas para a garganta.
— Mãe, olha o carrinho do picolé — disse Tiaguinho, apontando para o picolezeiro passando, já a uns dez metros.
Flora levantou-se, pegou um dinheiro amassado do bolso interno do guarda-sol e levou Tiaguinho pela mão.
— Já volto — disse ela —, vocês dois se comportem aí.
O silêncio constrangedor deixado pela ausência de Flora foi quebrado por Beto:
— Flora é uma mulher incrível. Faz tempo que vocês estão juntos?
— Uns dez anos — respondi. Tomei um gole de cerveja, virei-me para ele e disparei. — Beto, sei que vocês tiveram um lance. Não posso dizer que lamento por ela ter deixado você. Afinal… não é fácil lidar com a traição.
Ele juntou as mãos, pensou por alguns segundos, e respondeu encarando o oceano.
— Não é fácil mesmo. Mas ela quis terminar, mesmo após eu a ter perdoado. — Beto virou-se para mim e continuou. — Acho que eu não podia dar tudo o que ela queria.
Flora e Tiaguinho voltaram e a conversa seguiu. Aos poucos, Beto foi se mostrando um cara legal. Irritante, mas legal. Até o Tiaguinho aproximou-se da roda e, enquanto brincava, prestava atenção nas incríveis histórias de salva-vidas contadas por ele. Empolgado, improvisando com um cordão velho encontrado na areia, Beto ensinou alguns tipos de nó ao nosso menino. A maioria deles era muito simples. Por que nunca pensei em ensinar essas coisas para Tiaguinho?
Flora comentou que deveria ser difícil manter o preparo físico exigido pela profissão de Beto. Ele confirmou, e garantiu que levava o ofício muito a sério: um exagero na janta da noite anterior poderia significar a sentença de morte para alguma criança descuidada, engolida pelas águas traiçoeiras do mar.
— Agora mesmo — continuou ele — cheguei na praia após praticar meu exercício de natação diário. Vocês estão vendo aquela boia? — perguntou ele, apontando para algo branco e alaranjado, flutuando no horizonte marítimo.
— Claro — respondi. — Deve ficar a mais de cem metros.
— Cento e cinquenta, para ser mais exato — disse Beto. — É uma boia de sinalização da Marinha. Todos os dias eu nado até lá. São trezentos metros, ida e volta.
— Lembro quando eu fazia natação no clube Pinheiros — eu disse. — Era uma piscina de vinte e cinco metros e eu fazia dez repetições.
— Duzentos e cinquenta metros. Nada mal — respondeu Beto. — Amanhã, ao meio dia, vou de novo. É um compromisso comigo mesmo e com os banhistas.
— Papai, será que você consegue nadar até a boia também? — perguntou Tiaguinho.
Nem preciso dizer que, naquele momento, eu não poderia fugir do desafio proposto involuntariamente por Tiaguinho. Beto ainda argumentou que tinha certeza que eu era um bom nadador, mas piscina era bem diferente do mar. Olhei para Flora, na esperança de que ela me livrasse da empreitada. Ela sorriu, como um pai que deixa o filho livre para traçar seu destino; depois, respirou fundo e disse:
— Não seja louco, Téo. Sou muito nova para ficar viúva.
Agora, cansado e embalado pela imensidão azul, flutuar sobre as águas salgadas parecia tarefa cada vez mais difícil, senão impossível. Inclinei a cabeça. Ainda via Beto, em resoluta cadência na direção do destino habitual.
Reuni forças e dei um último grito de socorro. Mal reconheci minha voz, desesperada, sabendo-se não ouvida. Virado de costas com o sol ardendo na pele, submergi, as águas cobrindo-me o rosto. Um som, que pareceu ser a voz de Tiaguinho me chamando para montar Lego — convite raramente atendido —, me puxou de volta à superfície. Alcancei o ar num espasmo e respirei fundo, mais uma vez. Se eu conseguisse me manter flutuando, talvez o vento e a maré me levassem para a rebentação.
As águas cobriram novamente meu rosto. Lembrei de Flora, quase ouço a risada dela quando me mostrou o resultado positivo do teste de farmácia. Arregalei os olhos e o sol fulminou minha retina.
Afundei.
Quando criança, caí dos galhos de um angico que sombreava a frente da nossa casa e quebrei o braço direito. Segurei o choro, mas gritei. Meu pai, que ouvira o grito, viu-me pela janela da sala e, como um raio, saltou por cima do peitoril e correu em meu socorro.
“Aguenta firme que estou chegando”, ouvi a voz dele. Meus olhos, salgados de mar, reconheceram o rosto familiar. A cauda de sereia. As escamas iridescentes, mudando de cor ao sabor da luz refratada pela cobertura d'água.
Uma mão forte me agarrou pelo braço. “Fiquei de olho em você”, escutei uma voz, me puxando. O alívio que senti foi tão avassalador quanto a água salgada que vomitei em soluços. "Vamos, Téo. A Flora e o menino estão te esperando na areia."