Imagem do Texto

Conto

Caso Encerrado

December/2025

Paulo Carbonera

Nio Castro acordou com as coxas em brasa, o laptop a cozinhar suas pernas. Na tela, dois parágrafos pálidos zombavam da maior seca criativa que o assolava há meses.

O céu de São Paulo entrava pela única janela do apartamento, luzes barulhentas anunciando a virada. Nio girou o pulso e consultou seu Tissot, trincado no vidro: 23 horas. Pegou o celular e pensou em ligar para Catarina.

Desistiu.

Lembrou da aposta e deu um Alt+Tab e um refresh. Duvidou do que viu, como se tivesse lido errado, e fechou o laptop de uma vez.


De manhã, após a noite não dormida, Nio levantou-se e foi direto tomar banho e também fez a barba. No meio da bagunça, encontrou uma cueca limpa, calça jeans e o paletó de entrevistas de emprego, pouquíssimo usado. A geladeira vazia e a vigorosa vontade de encontrar gente o levaram do vigésimo andar ao térreo, precisamente à Confeitaria Santa Efigênia, sua padoca preferida do Edifício Copan.

— Nio, de manhã? O mundo está mesmo acabando — brincou Raul, o dono.

— Quero recuperar hábitos antigos, Raul. Me traz uma coxinha e um café disse, abrindo seu laptop sobre a mesa. Enquanto esperava o equipamento ligar, pegou o celular e ligou para Catarina.

— Oi am.., oi Catarina.

Sei que é cedo.

Não passei sozinho, me encontrei com um pessoal.

Estou com saudades…

Eu sei.

A dívida é de quase um milhão, eu sei.

Agora vai ser diferente.

Somos novos, podemos recomeçar.

Eu entendo — disse, encerrando a ligação quando Raul chegou com o café.

— Me desculpe, Nio, eu não queria ter escutado. — disse Raul. — Tu tá rindo de nervoso, não é? Posso imaginar a resposta dela.

“Só se você ganhar na loteria”, foi a resposta— disse Nio, num muxoxo. Pra você eu posso falar.

— Sinto muitorespondeu Raul, enquanto largava a comanda na mesa. Falando nisso, ontem saiu o resultado da Mega da Virada. — disse ele apontando para a TV. Nio levantou os olhos para o aparelho.

O prêmio saiu aqui pra São Paulo — continuou Raul. — Infelizmente, não fui o felizardo. Senão, eu já estaria bem longe daqui. Aruba, Cozumel, alguma ilha do Caribe.

Nio deu de ombros enquanto soprava a xícara de café que fumegava em frente a sua boca.

E você, Nio? O que faria se ganhasse uma bolada?

Nio largou a xícara e tamborilou os dedos na mesa.

Aquele seu primo, o Toni, ainda trabalha no cassino?

— Fala baixo, o negócio é mocozado — sussurrou Raul, olhando ao redor. — Além disso, tu sabe que eles não mexem com jogatina.

— Me passa o telefone dele. Talvez ele possa me ajudar com umas coisas que estou precisando.


Algumas semanas depois, por telefone:

— Oi, Catarina, ouviu meu recado?

É isso. Me passa tua conta.

Sim, de um adiantamento.

Pensou no que eu lhe disse?

Que… vão se casar?


Na mesma noite, Nio liga para Toni e reserva 50 mil em fichas. “Vai ser hoje”.

Depois, se arruma para sair: banho, barba e fragrâncias exclusivas espalhadas pelo corpo; veste o terno Zegna, confere o Cartier no pulso e calça os mocassins da Gucci.

Chegando ao cassino, Nio retira no caixa as cinquenta fichas color chips e vai direto à roleta. É uma quarta-feira animada. Gente bonita desfila ao tilintar de copos de espumantes, whisky e risos exagerados. Mulheres ainda mais belas servem bebidas, charutos e canapés.

Nio senta-se em uma banqueta vaga, ao lado de uma mulher de chapéu violeta e acena ao crupiê. Olha para ela e pergunta:

— Hoje quero perder muito… ou ganhar muito. Qual é o número da sorte?

— Não vou participar da sua ruína — responde ela, não sem antes medir-lhe dos pés à cabeça. — Mas caso venha a ganhar, brindemos com uma taça de Dom Pérignon.

O crupiê gira a roleta e lança a bolinha. Nio deposita quatro fichas no preto 22 — trinta e cinco por um, anunciava a casa. A bola perde velocidade, ricocheteia nas arestas e se acomoda de uma vez no vermelho 25. A mulher sorri discretamente e Nio repete a aposta. Uma, duas, três vezes.

Perde em todas. A dama ensaia deixar seu lugar.

— Espere, — diz Nio, virando-se para ela. — Vai perder a melhor parte.

Sem levantar a voz, ele conversa com o crupiê que, por sua vez, chama o inspetor da mesa. Trinta color chips são trocadas por uma única placa cerâmica, estampada com o número 30K.

Com a bola girando, Nio encontra o olhar de Toni no Mezanino, que o cumprimenta, segurando a aba do chapéu. Nio volta-se para a mesa e deposita a placa retangular no vermelho 36. A bola perde velocidade. Em ricochetes, aproxima-se da casa 36, bate na borda e salta para a casa 13. A mulher sorri. Antes de parar, porém, como se movida por Deus, a esfera metálica seu derradeiro repique e encaixa-se no quadrado vizinho. Vermelho 36.


Antes de sair do Cassino, Nio procurou Toni, na sala da gerência.

— Aqui está tudo o que irá precisar, — disse Toni, entregando a Nio um envelope pardo. — Cuide bem disso pois não guardamos cópia de nada.

Nio esvaziou o conteúdo do envelope sobre a mesa e conferiu tudo. Meticulosamente. Guardou os papéis novamente e encarou Toni, agradecendo-lhe com um maneio da cabeça.

Deposite o dinheiro do prêmio na conta de Catarina Castro — disse-lhe Nio, anotando os dados bancários num pedaço de papel.Ela é minha ex-mulher… será sua última tarefa.

Um milhão para a ex? — disse Toni, arqueando as sobrancelhas. — E os cinquenta mil restantes?

Fique com eles. Um extra pelos bons serviços prestados. — respondeu Nio, despedindo-se com um aperto de mãos.

Ao sair, virou-se uma última vez:

Ah, eu já ia esquecendo. Ofereça uma taça de Dom Pérignon à mulher de chapéu violeta.


Dois dias depois, Catarina procurou Nio. O celular chamou e ninguém atendeu.

Na semana seguinte, o cheiro atraiu os vizinhos, que chamaram o síndico. O síndico acionou a polícia.

Um corpo de homem, fedendo, mas ainda bem vestido, fora encontrado estirado na cama. No chão, os mocassins da Gucci jaziam alinhados. No bidê, ao lado dos documentos e do Tissot trincado, um frasco sem rótulo convenientemente aberto dera o veredito: “Intoxicação medicamentosa compatível com suicídio.”

Caso encerrado.

O relógio Cartier Santos, entretanto, nunca fora encontrado.