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Conto

No Tempo Devido

March/2026

Paulo Carbonera

Viriato acordou botando os pulmões para fora, engasgado com o próprio catarro. Estendeu o braço esquerdo para o lado, ato repetido ao longo de uma vida, procurando por Zenaide. O doloroso esbarrão dos dedos nodosos na grade da cama o fez lembrar que estava num quarto de hospital. E que Zenaide partira há pelo menos vinte e cinco anos.

Ainda tossindo, virou-se para a esquerda e, com dificuldade, o dedo tremendo, pressionou o botão que reclinava o encosto da cama. A elevação da cabeceira ajudou a acalmar a tosse. Ofegante, engoliu o ranho e estreitou os olhos murchos em direção ao relógio pendurado na parede. 06h35 da manhã. Logo entraria algum enfermeiro para medir-lhe a pressão arterial e outros sinais vitais. Depois da morte da mulher, veio o abandono dos filhos — era verdade que Valdo, o mais novo, escolhera abandonar a vida. Sabia que a única garantia de cuidados na velhice vinha da sua gorda conta bancária.

As luzes do corredor se acenderam suaves, clareando as janelas de aquário do quarto que davam para o corredor. Viriato olhou em direção a elas e congelou, engolindo a respiração entrecortada. Do lado de fora, em frente a uma das janelas, um homem o observava. O sujeito vestia uma túnica preta, lembrando um Frei Capuchinho, e se apoiava com as duas mãos em uma bengala. Não fazia ideia de quem diabos era aquele sujeito. O capuz, também negro, escondia o semblante e destacava tão somente o pálido e lustroso nariz. Ele encarou o homem, que permaneceu imóvel, rígido como rocha vulcânica.

Viriato pegou o controle remoto e comandou o fechamento das persianas internas. Após observar satisfeito o homem de preto ser eclipsado, acionou as cortinas da janela externa, que ficava à esquerda da cama. A suave abertura foi revelando o crepúsculo matinal. Era um outono emburrado e chuvoso, mas a exuberância de um novo dia se descortinava. Viriato sempre se incomodou com o ciclo dos dias: um novo sempre nascia, era verdade, com promessas e esperanças renovadas. Mas o preço do novo vinha no devido tempo: a morte do antecessor. Gostava de pensar que, em breve, a medicina moderna poderia resolver isso tudo. E em parte já resolvia. Não era à toa que ele investia pesadas quantias na Fundação Vida Eterna, e eram eles que amarravam os ponteiros do relógio e o mantinham vivo e relativamente saudável, apesar dos noventa e sete anos.

Ele ouviu a porta se abrindo. Devem ser os enfermeiros, meus anjos da guarda remunerados, pensou. No íntimo, torcia até que fosse o Jeferson. Apesar do jeito espalhafatoso, Jeff — como gostava de ser chamado — tinha bom humor e não era tão rígido quanto os outros. Fora ele, inclusive, que acobertara a entrada daquele frio e inseparável brinquedo que Viriato mantinha escondido no armário do banheiro.

O relógio da parede marcava 06h59, precisamente.

E quem entrou pela porta não foi Jeff, mas uma mulher. E era uma mulher bonita, que lembrava a cara da filha dele, cabelos até o ombro, esvoaçados. De prancheta na mão, ela vestia um cardigan cor de areia por cima de um vestido azul, quase cobrindo as canelas. Ele piscou. Quando abriu os olhos, ela já estava ao lado da cama.

Senhor Viriato. O nome está correto? — perguntou ela.

O cheiro dela contrastava com o odor estéril do hospital. Tinha algo de primaveril, que jogou Viriato de volta aos seis anos de idade, rolando com seu cachorro pelo gramado repleto de inços nos fundos da casa do avô.

— Desculpe, — respondeu o homem, pigarreando. — Fiquei tonto. Você é nova aqui?

— Sim, de certa forma. Nesse quarto, é a minha primeira vez — respondeu ela. — Talvez tu já tenhas me visto por .

O velho franziu o cenho a mediu com atenção. Os olhos eram de um verde antigo que destoava das suas bochechas rosadas e cílios enormes. Mas o nariz era igual ao da filha dele.

Sem querer ofender, mas você é psicóloga? Eu disse a eles que não queria mais saber.

— Não — ela respondeu. — Só quero ter um tempo contigo.

Ele pestanejou.

Você é da Fundação Vida Eterna. É óbvio. Ou trabalha para eles, posso apostar.

Digamos que às vezes lidamos com as mesmas questões — respondeu ela, anotando algo na planilha.

E aquele homem lá fora, vestido em negro — disse Viriato coçando o nariz. — Não gostei dele. É um de vocês, não é?

— Ah, o homem é uma figura esquisita, eu sei. Quando terminarmos aqui ele vai levar o senhor.

— Eu vou para onde? — perguntou Viriato, arregalando os olhos. — Vou ser transferido para a Sede da Fundação?

Viriato sabia que poucos eram contemplados com a Sede, onde desfrutaria do estado da arte da gerociência translacional. Não bastava ter muito dinheiro, e isso não era problema, mas era preciso também atender a critérios difíceis de entender.

— É. — Respondeu ela, sem dar muita importância. — Acho que tu vais mesmo para o outro lugar.

Então ela pegou o controle remoto da TV e a desligou. Detesto esse aparelho, disse ela, ele rouba o nosso tempo. Depois, tirou da bolsa um metrônomo de madeira, desses usados em conservatórios antigos, o colocou ao lado da TV e ajustou o pêndulo allegretto, prefiro assim, como gostava aquele compositor alemão — e depois acionou o mecanismo:

Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Ela voltou, sentou-se na confortável poltrona de couro ao lado da cama e cruzou as pernas. Pode começar, disse.

Viriato deu de ombros. Ela esperou.

Finalmente, ele intuiu que a transferência para a Sede dependia daquela dinâmica.

— O que você quer saber, menina? — disse ele, sentindo-se desconfortável por não conseguir precisar a idade daquela mulher.

Ela esboçou um meio sorriso e, sem desviar os olhos da prancheta, disse a ele:

— Consta para mim que, apesar dos teus 97 anos, tu desejas viver mais. Queres mais do Tempo.

— Sou um homem rico, minha filha, bem-sucedido. Emprego muita gente — ele disse, fazendo uma careta como quem cansou do próprio discurso. Após longa e ruidosa inspiração pelo nariz, completou: — Ainda me sinto útil. Quero ajudar as pessoas que dependem de mim.

Ajudar pessoas, ela anotou.

Quais pessoas tu lembras de ter ajudado ao longo da vida?

Viriato virou o pescoço para ela e depois olhou para cima. Apertou os lábios e respondeu:

— Como já disse, minhas empresas empregam tanta gente que nem posso lhe dizer quantas são. A maioria delas, com família para sustentar. Se fizermos as contas, milhares dependem de mim.

Alguém em particular… algum familiar, um ente querido? — Ela perguntou. — Zenaide, por exemplo, a tua mulher. Consta que ela morreu faz 22 anos, aos 50 anos de idade. Como ela morreu?

Bem, ela teve uma febre alta, — respondeu ele, em meio a um pigarro — e não quis ir para o hospital… foi uma fatalidade. Não lembro bem.

Na verdade, ele lembrava. Um ano depois do suicídio de Valdo, Zenaide mergulhou em uma depressão profunda, traiçoeira como a morte. Ele não aguentava ver a mulher daquele jeito e preferia passar o dia fora de casa. Saía tarde do trabalho e caía no happy hour com alguns funcionários puxa-sacos.

Ela morreu muito nova, não achas?

Sim, ela morreu muito nova. Ele lembrava de tudo. A filha mais velha a que era sensata já fazia a vida como pesquisadora em renomada universidade de Paris. Valdo, o mais novo, vivia como se não houvesse amanhã. E tratou de garantir que o seu não chegasse.

Naquele dia, Viriato já estava no bar quando recebeu diversas ligações da mulher. Ele ignorou, pois de nada adiantava atender, ouvir os queixumes de sempre. Quando entrou em casa ela já estava desacordada. Chamou a ambulância, mas os incompetentes chegaram tarde demais. Desidratação severa, foi o que disseram.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Por que teu filho se matou?

Viriato virou-se e encontrou os olhos da mulher, que agora lhe pareciam castanho-escuros.

— Como você sabe que ele se matou? — perguntou ele.

Entenda que, para nós, sua vida é transparente ela respondeu.

Ele era um vagabundo — respondeu ele, a contragosto. — Acho que era gay. Expulsei-o de casa e cortei a mesada. Uma semana depois, chorando, ele me pediu para voltar. Dei uma bronca e aceitei o infeliz de volta, deixando claro que seria dentro das minhas regras. Um mês depois ele se matou. Era um covarde.

— Certo, deixe-me ver. Zenaide morta, Valdo morto. A filha sensata fugiu o mais cedo que pôde. — Ela fez algumas anotações. — Devo te dizer, Sr. Viriato, que tuas alegações não fazem sentido para mim.

Viriato a encarou, enrugando a carranca. Levantou-se, devagar, e calçou os chinelos que estava ao lado da cama.

— Preciso mijar — ele disse, dirigindo-se ao banheiro privativo do quarto. Entrou no banheiro e deixou a porta aberta.

A mulher continuou falando mais alto para se fazer ouvir diante do barulho viscoso da urina caindo no vaso sanitário.

— Um pensador romano me disse certa vez que a eternidade está ao alcance daqueles que sabem beber do tempo dos sábios, transbordá-lo ao próprio tempo vivido. — Ela disse, enquanto abria as persianas das janelas do corredor. — Dostoiévski, Virginia Woolf, Albert Camus… já leste algum deles?

Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Do banheiro, ouvia-se um barulho de abrir e fechar gavetas. O velho voltou, trazendo consigo um malcheiroso odor de amônia e parou do outro lado da cama, postando-se em pé, de frente para a mulher. Apoiou a mão esquerda no leito enquanto deixava a direita oculta, atrás do corpo. Quando percebeu as persianas do corredor abertas, encolheu-se com a imagem sinistra do homem de hábito negro. Ele continuava do lado de fora, os observando, exatamente no mesmo lugar e na mesma posição. Os médicos e enfermeiros que passavam pelo corredor pareciam não percebê-lo.

Gosto também daquele poeta e intelectual cubano, José Martí: Para ser hombre hay que tener un hijo, sembrar un árbol y escribir un libro”. — disse a mulher, segurando o queixo. — Além dos filhos fugidos, fizeste alguma dessas ações? Uma árvore um livro, talvez.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

— Não sei qual jogo está jogando, menina — disse Viriato, entre dentes e olhos famintos. Ato contínuo trouxe a mão direita para frente a apontou uma arma para a mulher.

Agora sou eu quem dá as cartas — ele continuou. — Eu sempre consigo o que quero, de uma forma ou de outra.

Ela, não parecendo assustada, levantou os olhos da planilha e virou-se para ele:

Vejo que tem uma Luger P08, calibre 7.65. Uma raridade. Era do teu pai, eu sei. Ele teve que fugir para o Brasil depois da guerra. — disse ela. — Tu sabes como usá-la?

— Não fale do meu pai, insolente. Cale a boca e anote tudo o que eu disser nesse relatório de merda — disse ele, o dedo trêmulo no gatilho.

Ela se levantou e guardou a prancheta na bolsa.

Nós terminamos, no tempo devido.Disse ela, olhando para a janela do corredor, os cabelos tremulando como trapos no varal antes da tempestade.

Viriato arregalou os olhos. Através do vidro, o homem de túnica negra pareceu ajustar o peso do corpo sobre a bengala.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

— O que quer de mim? — ele ainda perguntou.

Ela sorriu, mas o sorriso escorreu dos lábios.

Então ele disparou. Depois do estampido seco, chegou a sentir o cheiro da pólvora e o soco da pistola em seu pulso.

A mulher ergueu a mão direita, em prona, e o metrônomo parou, de imediato. Um ruído opaco reverberou pelo quarto, num eco infinito. Era possível ver o obus calibre 7.65 suspenso no ar, como um peixe morto sob a água, assim como cada uma das partículas da nuvem de pólvora que se arrastava atrás do projétil.

O mundo girou e Viriato sentiu o corpo pesado afundando em seu leito. Ainda abriu os olhos, em paralisado desespero, como o último fio a se soltar do carretel.

O relógio ainda marcava 06h59 — no tempo devido.