Resenha
Resenha - O Incidente em Antares
April/2026
Paulo Carbonera
Incidente em Antares
Érico Veríssimo - 1971 - último romance do autor

"Por que demorei tanto para ler esse livro?" — uma pergunta que qualquer leitor fará ao terminar as últimas páginas de Incidente em Antares, sem dúvida um dos grandes monumentos da literatura brasileira.
A obra
Publicado em 1971, em plena Ditadura Militar, Incidente em Antares é o último romance de Érico Veríssimo e considerado um de seus maiores legados — e, para mim, supera até os épicos volumes de O Tempo e o Vento. A sinopse já revela um livro fora do comum: já imaginou se os mortos pudessem ressuscitar para acertar as contas com os vivos, sem nada a perder com isso? Pois é exatamente isso que acontece na pequena cidade fictícia de Antares, no Rio Grande do Sul, numa sexta-feira 13 de dezembro de 1963.
Estrutura: duas partes essenciais
O livro se divide em duas partes distintas. A primeira, de cerca de 200 páginas, é um retrospecto histórico que acompanha a fundação do vilarejo desde por volta de 1830, quando ainda se chamava Povinho da Caveira, até o início da década de 1960, quando o professor Martim Francisco Terra, pesquisador da UFGRS (e que posteriormente tornou-se persona no grata em Antares) concluiu o trabalho acadêmico "Anatomia duma cidade gaúcha de fronteira", baseada em uma série e estudos estatísticos e entrevistas feitos com a população de Antares. No período, com extrema habilidade, Veríssimo nos conta a história política do Brasil, culminando com a morte de Getúlio Vargas, entremeada com perrengues da fictícia elite política de Antares, marcada pela rivalidade familiar entre os Vacariano (que desde sempre mandavam no lugar) e os Campolargo, iniciada com a chegada de Anacleto Campolargo, na década de 1860. Alguns leitores podem achar essa parte mais lenta (e eles estarão enganados), mas não pule: é nessa parte que Veríssimo constrói toda a densidade dos personagens que explodem na segunda parte.
Os Vacarianos representam o conservadorismo rígido; os Campolargos, um liberalismo sempre à procura de mudança. Essa disputa de ego e poder é o pano de fundo perfeito para o caos que está por vir.

Adaptação para minissérie de TV - Dirigido Paulo José - Brasil, 1994
O incidente
A segunda parte é onde a narrativa decola. Uma greve geral paralisa Antares — inclusive os coveiros. Sete pessoas morrem em determinado dia e seus caixões ficam do lado de fora do cemitério, sem poder ser enterrados. O cheiro de podridão logo toma conta da cidade e, para espanto geral, os mortos ressuscitam:
• Dona Quitéria – Matriarca Campolargo
• Cícero Branco – Advogado corrupto
• Barcelona – Sapateiro anarquista
• Menandro – Pianista talentoso e frustrado
• Joãozinho Paz – Militante de esquerda (torturado e morto)
• Erotildes – Prostituta
• Pudim de Cachaça – O bêbado
Cada um desses mortos é um recorte da sociedade local. Unidos pelo objetivo de serem enterrados — e de ajustar contas com os vivos —, eles percorrem a cidade confrontando pendências do passado. Depois, reúnem-se na praça e, sem nada a perder, revelam os segredos mais sórdidos da população. A cena é ao mesmo tempo hilária e aterrorizante.
Sátira com coragem
É difícil imaginar como, em pleno regime da ditadura militar imposta em 1964, o livro passou pela censura. Veríssimo teve a coragem de criar uma sátira política direta, com críticas ao autoritarismo, à repressão e às tensões do regime militar. Talvez a camada de humor que envolve a narrativa tenha despistado os censores — afinal, quando os mortos começam a falar, é impossível não rir.
A ressurreição funciona como uma metáfora poderosa: ao expor os segredos da cidade, os defuntos ilustram o impacto da censura e da repressão sobre a sociedade. O prefeito, em um toque de astúcia política, logo desmente tudo — e a história é varrida para baixo do tapete, como sempre acontece.

Capa da edição em quadrinhos - Editora: QUADRINHOS NA CIA
O Padre Vermelho
Dentre tantos personagens memoráveis, o meu destaque para a segunda parte do livro vai para o Padre Pedro Paulo, mais conhecido pelo apelido pejorativo de Padre "Vermelho" — alcunha que lhe foi colada pela elite e pelos reacionários de Antares. O motivo é óbvio e simples: sua defesa intransigente da causa operária e suas opiniões progressistas eram insuportáveis para quem preferia uma Igreja silenciosa e conivente com o poder. Longe dos salões da elite local, ele atuava na paróquia da Vila Operária, uma área miserável e ignorada pela política oficial da cidade.
Sua visão de mundo fica clara em uma das passagens mais cortantes do livro: para ele, "comunista" era apenas o pseudônimo que os saudosistas do fascismo usavam para chamar quem lutava por justiça social. A frase sintetiza com precisão cirúrgica o clima de Antares — e do Brasil dos anos 60 —, onde qualquer voz dissonante era rotulada e silenciada. Veríssimo usa o personagem para expor não apenas a hipocrisia dos conservadores, mas também a cumplicidade das instituições com o poder estabelecido.
E foi exatamente isso que aconteceu no final: investigado pela polícia política, o Padre Pedro Paulo perdeu o posto de capelão da Vila Operária e foi transferido pelas autoridades eclesiásticas para uma paróquia remota. A punição diz tudo. Ele representava, na ficção de Veríssimo, a ala progressista da Igreja Católica — aquela que escolheu o lado dos esquecidos em vez do lado dos poderosos — e paga um preço alto por isso. É um personagem que incomoda, questiona, e que, justamente por isso, é impossível de esquecer.
Veríssimo é genial e merece muito ser lido. A escrita é irretocável, com diálogos inteligentes, por muitas vezes hilários, mas sempre reveladores da condição humana.
Relevância hoje
Sem muito esforço, encontramos Tibérios Vacarianos e Quitérias Campolargos nas metrópoles e nos rincões do Brasil de hoje. Não necessariamente coronéis ou ricos e poderosos — mas igualmente hipócritas, conservadores e obtusos. A discussão política proposta por Veríssimo em 1971 continua urgente.