Crônica
O Empreendedor
May/2026
Paulo Carbonera
— Pois veja só, Mendonça — disse Geílton, cheio de si, olhando de canto de olho para o homem. — É Mendonça, seu nome, não é?
— É sim — respondeu Mendonça, levantando os olhos por cima dos óculos e forçando um sorriso que, ainda assim, saiu amarelo.
— Pois então — continuou Geílton, — só estou aqui hoje, graças ao meu esforço e tino empresarial. Sou um defensor da meritocracia. Eu defendo que, hoje em dia, todo mundo precisa ser um empreendedor. Do funcionário mais humilde até o presidente da empresa.
Quando essa coisa dos carros elétricos apareceu, eu logo vi a oportunidade que era. Uma oportunidade única, eu costumo dizer para meus clientes. O cavalo não passa encilhado duas vezes. Não é o que dizem?
Mendonça aquiesceu, desviando os olhos do celular.
— Os carros elétricos são o futuro. Um futuro limpo, ecológico, de baixa pegada de carbono. Você sabe o que é pegada de carbono, não é? Não nego que me incomoda serem fabricados na China. Bom mesmo seria a Tesla. E o Elon Musk — que homem! Um visionário. O cara inspira a gente, não é mesmo?
Mendonça fez que sim com a cabeça.
— Se o brasileiro pensasse como povo o americano, a coisa seria diferente. Aquilo lá que é país. O país das liberdades. — Animou-se Geílton, ajeitando-se na poltrona. — Lá, se o sujeito trabalha duro, pega pra valer mesmo, logo ele tá comprando um Tesla. É meritocracia na veia! Você já andou de Tesla, Mendonça?
— Não, nunca — Mendonça limitou-se a responder.
— Lá nos States, o governo não prejudica o empresariado como o nosso faz com a gente. O empresário brasileiro mata um leão por dia. E ainda temos que conviver com esse povo que não quer pegar no batente — só querem Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e essas coisas que só servem pra comprar voto. Com o nosso dinheiro, ainda por cima.
Silêncio, por alguns instantes. Mendonça, que mantinha os olhos abaixados em direção ao celular, ergueu o semblante.
Geílton encarou Mendonça e perguntou:
— Você é contra ou a favor do Bolsa Família?
Mendonça não respondeu, bocejou e preferiu admirar a paisagem que desfilava ao lado de sua janela. Ouvia-se apenas o opaco e eletrificado ruído dos pneumáticos rodando no asfalto.
Geílton observou pelo espelho novamente e reparou que o Mendonça agora parecia dormir, com a cabeça escorada no encosto do banco traseiro.
Será que o Mendonça é de esquerda? Não, Geílton tinha quase certeza que não. Mas, e quanto ao Bolsa Família? Bem, essa pergunta não foi respondida. Ao final da corrida, Geílton até pensou em oferecer ao passageiro algumas balinhas de menta que guarda no console do BYD. Mas recuou. Talvez Mendonça não merecesse.