Crônica
Entre guelfos, subtextos e gibelinos
June/2026
Paulo Carbonera
O filho entrega o caderno espiral para o pai, já aberto na página do texto recém-redigido.
— É pra amanhã essa redação, Juninho?
— É para amanhã, Pai. E não é uma “redação”, é uma paródia em cima de uma obra literária clássica.
O pai pega o caderno, emburrado. Às 9h30 vai começar o jogo do Flamengo. Na época dele não tinha essas invencionices de paródia, crônica, essas bobagens todas. Tudo era redação.
Antes de pousar os olhos sobre o manuscrito, o homem respira fundo, sabe que vai acumular temporariamente as funções de promotor e juiz.
Então, Teobaldo mandou uma mensagem a Romeu: “Me encontre na viela lateral do Mosteiro dos Franciscanos, daqui a 15 minutos. Estarei no fim da rua, ao lado do meu cavalo branco”.
— Hum, é sobre Romeu e Julieta. Quem é esse Teobaldo?
— Sim, é Romeu e julieta, só que paródia, né — responde o menino, pousando as mãos sobre os joelhos. — O Teobaldo era o primo da Julieta, dos Capuleto.
Quinze minutos depois, Romeu respondeu: “Já estou aqui. Cadê você?”.
— Como assim, “Quinze minutos depois Romeu respondeu”? Essa história não se passa na Idade Média?
— Era pra ser, tipo Século XII ou XIII. Por aí. E qual é o problema?
— Pensa, meu filho. Tinha WhatsApp naquela época? Ou pelo menos SMS, um pager, que fosse?
— É. Acho que não tinha. Então vou mudar a história para a nossa época, para agora, tipo pra 2021.
— 2021 era o auge na pandemia. E ainda por cima na Itália...
— Tá bom, então 2026, mesmo. Fica bom pra você?
— Se for Século XXI, seria bom tirar aquele cavalo branco.
— Nossa, você quer mudar tudo. Uma BMW branca, então.
O pai levanta as sobrancelhas por cima dos óculos e continua a leitura.
“Tenho um mau pressentimento, Romeu”, disse Teobaldo segurando as mãos do amigo, “se você não largar a Julieta, acho que vocês podem até morrer. Nossas famílias se odeiam muito, muito mesmo”, disse Teobaldo.
— E o Teobaldo tem que dizer isso segurando a mão do Romeu? Não pode simplesmente falar?
— Poder, pode. Mas assim fica mais no clima.
— Que clima?
— O clima da história, né.
O pai olha o menino com cara feia. Mas continua lendo.
Romeu suspira e responde: “Julieta é o grande amor da minha vida. Se eu a largar, ela vai se casar com o Páris. Maldito sujeito. Maldito casamento arranjado”.
“Eu, hein, que obsessivo, Romeu”, respondeu Téo, pousando as mãos sobre os joelhos, “será mesmo que ela é seu grande amor? Me parece que é mais uma competição entre você e Páris. Uma tola competição”.
— E esse cara, é Téo ou Teobaldo? É melhor se decidir — argumenta o pai. —E só pra constar, eu não gostei dele não.
Romeu, que até então olhava para os céus, se voltou para Teobaldo: “Mas… tudo o que eu faço é por ela. Tenho certeza que ela me ama”, disse ele, buscando a confirmação no olhar do estimado amigo e primo de Julieta. “Ela odeia o Páris, não é Teobaldo”?
“Bem, não sei se posso afirmar isso”, respondeu Téo. “Eles até se davam bem. Mas ela mudou quando os pais a obrigaram... acho que é mais por birra da Julieta”.
— Mas esse Téo, hein. Que sujeito ardiloso. Garanto que quer separar o casal para ficar com a Julieta.
— Não é bem isso, pai. Ele não se interessa pela Julieta. Além do mais, eles são primos. Nem poderiam.
— É mesmo.
“Eu não sei mais o que pensar”, disse Romeu, fechando os olhos.
Téo segurou novamente as mãos de Romeu e aproximou-se do amigo. “Pense que o verdadeiro amor pode estar mais perto do que você imagina”, disse ele, “às vezes é só abrir os olhos”.
—Hum, o que o Téo quis dizer com isso?
— É subtexto, pai — explicou Juninho. — É quando as coisas são ditas sem precisar dizer.
O pai ajustou os óculos no rosto, a boca levemente entreaberta, processando a informação. — Agora entendi. O Teobaldo é gay... veja só.
— Isso mesmo. Na minha história, Julieta e Páris ficam juntos, felizes da vida. E o Romeu foge com Teobaldo rumo ao oriente, para Veneza.
Teobaldo monta no cavalo branco e olha para Romeu: Você não vem?
— E o melhor: ninguém morre — finaliza Juninho.
O pai, olha para um lado, para o outro e depois diz:
— Não sei não, Juninho. Essa história tá muito estranha. Romeu gay? Foge muito da realidade. E sem falar no lance do cavalo!
— Na verdade, pai, tem muita realidade nessa história.
Os personagens são inspirados em pessoas reais — explica o menino. — Julieta seria a Valentina, a minha prima. E o Romeu seria o Pedro… aquele meu colega de aula que vive aqui em casa.
A família dele toda vota no Lula. E a família dela, no Bolsonaro. Entendeu? Montecchio e Capuleto… Lula e Bolsonaro.
— Ah, sim. E eles são namorados, não é?
— Eram.
— Tá…, mas e quem seria o Teobaldo?