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Crônica

Amanhã, Forasteiro

June/2026

Paulo Carbonera

Ainda ontem, fui forasteiro.

Desde os sete anos, quando deixei minha cidade natal, sinto-me estrangeiro.

Fui algo exótico em todos os lugares onde fiz morada: no sudoeste do Paraná, no planalto catarinense e em muitos cantos do Rio Grande do Sul.

Cresci, casei e mudei de mala e cuia para o planalto central do Brasil.

Deixei o frio, o vento e a geada estalando sob meus pés.

Deixei o mate quente, o pinhão na chapa e as conversas ao pé do fogão a lenha.

Hoje, sou forasteiro. Mais um numa terra onde o traço do arquiteto escondeu a secura e fincou alicerces para assentar seus migrantes.

Quero voltar.

Mas voltar para onde?

O pinhão queimou, a chaleira esfriou e o vento — volúvel que é — mudou de lado.

Voltar para quem, se restou apenas o frio? Esse velho companheiro que ainda aquece minhas lembranças.

Voltar para quando, se o tempo não é maré? O tempo é rio, gravidade, porvir.

Talvez amanhã.

Talvez amanhã, forasteiro.