Conto
Todo o tempo do mundo
August/2026
Paulo Carbonera
Alex esperava por ele há 15 minutos.
Vestindo um elegante vestido-macacão azul que insinuava as curvas de seu corpo alto e magro, ela andava de um lado para o outro no corredor acarpetado do Cine Astor.
De vez em quando, virava-se para o saguão esperando vê-lo chegar. Gostava dele, especialmente quando vinha fardado, mas ficaria feliz mesmo que ele chegasse à paisana.
Alex abriu a bolsa para retocar os lábios. Depois olhou para a porta do banheiro, hesitou por um instante e preferiu usar o pequeno espelho da bolsa. Sabia que, quando queria, podia se tornar mulher bonita e atraente, até mais do que as mulheres comuns.
Para Beatriz, o dia transcorrera como qualquer outro. Um dia comum, poderia dizer.
Bebericando uma xícara de chá, sem nenhuma pressa, ela aguardava pelo namorado acomodada em uma mesa do discreto Café do Beto. No seu moleskine, anotava seus projetos: um apartamento no Moinhos de Vento… uma carreira na arquitetura… e, quem sabe, um casal de filhos.
De vez em quando, puxava a manga apeluciada do seu casaco verde para consultar as horas no relógio de pulso.
O Café ficava próximo à Esquina Maldita da Oswaldo Aranha. Apesar de concordar com os ideais de resistência do namorado, ela evitava frequentar a Esquina e seus bares. E também não gostava que o namorado andasse por lá, embora soubesse que era justamente para lá que ele costumava ir após as aulas do vespertino.
“Espero até o fim dos tempos… vejo ele em todos os meus futuros”, Beatriz escreveu no diário.
Há poucos quarteirões dali, num dos elegantes restaurantes da Rua da Praia, Camila esperava pelo pai, o Coronel, para tratar do futuro dela.
Finalmente ela o convencera a mandá-la para uma universidade dos Estados Unidos. Não precisava ser Harvard, MIT, ou outra dessas mais conceituadas. Podia ser qualquer uma, inclusive aquela do interior de Ohio, onde o amigo dele, militar americano, poderia conseguir até uma bolsa.
Tratariam disso quando ele chegasse. Enquanto isso, esperava olhando para suas duas mãos pousadas em cima da mesa. Pareciam estranhas, vermelhas, mas devia ser por conta do frio.
Mas quem veio foi o Tenente.
— Seu pai está cuidando de um assunto. Mandou-me ficar contigo. — Disse ele, enquanto sentava-se na mesa ao lado.
O Tenente não estava fardado. Vestia um terno bonito, estava até arrumadinho. Camila sabia que o Coronel tentava aproximá-los. Falava bem do moço e dizia que vinha de boa família, essas coisas de pai. Camila puxou da bolsa uma revista americana, já toda amassada, a passou a admirar novamente as fotos dos rapazes dos times da Liga Universitária de 1968.
No Astor, o filme que Alex e seu parceiro iriam assistir era “A Noviça Rebelde” (The Sound of Music), que vinha lotando as salas de cinema Brasil afora. Era falado em inglês, mas tinha legendas, o que bastava para ela. Ele preferia filmes dublados, lembrou-se. Foi até o hall (quem sabe ele estivesse chegando) e acendeu um cigarro.
Um rapaz que olhava os cartazes a observou. Alex o percebeu. O rapaz sustentou o olhar por um instante. Ela sorriu depois que ele desviou.
No Café, Beatriz encarava a fina lâmina de chá — frio, a essas alturas — que ainda restava em sua xícara. Pensava que talvez fosse a hora de dizer o quanto gostava dele, o quanto o amava. E por que não falar hoje?
O garçom, que antes lhe perguntara se podia recolher a louça, passou por ela e fechou as portas.
— Parece que o pessoal do DOPS baixou na Esquina Maldita — disse o ele virando-se para Beatriz, que era a última cliente.
Enquanto isso, no restaurante da Rua da Praia, o Tenente foi até a entrada e olhou para os dois lados da calçada. Acendeu um cigarro e voltou para a mesa.
— Ele está demorando — disse Camila.
— Às vezes demora mesmo.
Camila lembrou que o pai disse durante o jantar do dia anterior que planejavam uma operação nos próximos dias. Na Esquina Maldita, ela imaginava. Pensara até em ligar para a sua amiga de Segundo Grau, a Beatriz, que um dia lhe convidara para ir aos barzinhos de lá. O Coronel não gostava de Beatriz e dos outros amigos dela que estudavam na Federal, mas Camila arriscava-se e ainda mantinha as antigas amizades. Não custava avisar a amiga. Mas depois esqueceu.
Alguns minutos depois, Camila pediu ao Tenente que a levasse para casa. “Amanhã eu falo com o Coronel”.
No Cine Astor, Alex pensou: “Ele esqueceu”. Ela foi até a porta de entrada e alisou o tecido do macacão sobre os quadris antes de sair. Depois, na calçada, acendeu outro cigarro e deixou a fenda do vestido mostrar um pouco mais de suas pernas.
No Café do Beto, o garçom recolhia os cinzeiros das mesas e, constrangido, dizia para Beatriz que estavam fechando. “Ele deve estar bebendo com os amigos”, ela concluiu.
Beatriz levantou-se e pediu um taxi. Amanhã falariam.
Tinham todo o tempo do mundo.