Conto
A Marca do Silêncio
August/2026
Paulo Carbonera
Rei morto, rei posto.
Máxima que não valia mais no Reino da Santa Mitra, desde que o Rei Nino, o Velho, retornou ao trono. Desde que ele poupou Genaro da pena capital e ordenou que o trancafiassem nas entranhas do Castelo Alto. Os calabouços ocupavam as fundações mais antigas da fortaleza, onde a pedra era sempre úmida, mesmo nos dias mais secos, e o ar cheirava a mofo, ferrugem e coisa apodrecida. Ali, a luz chegava como um intruso e o silêncio só era interrompido pelo gotejar persistente das paredes ou pelo eco distante dos passos dos guardas.
Genaro, deposto, mas vivo, recebera o privilégio de ocupar uma das poucas celas dos calabouços a contar com uma janela, mínima, atravessada em cruz por grossas barras de ferro. O chão de pedra, irregular e enegrecido pelo tempo, devolvia o frio aos pés enrolados em trapos; as paredes, nuas, guardavam manchas que nenhum prisioneiro se arriscaria a examinar de perto. Um catre, uma poltrona puída e uma bacia de barro eram tudo o que havia ali dentro. E através daquela estreita abertura foi que o dia invadiu o mundo de Genaro, por uma fração de segundo, seguido de um estouro tão avizinhado que ele saltou do catre e pôs-se em pé mais rápido do que deveria.
A dor lancinante o fez levar a mão sobre o peito, sobre as ataduras. Onde costumava tocar e sentir o perfeito queloide que delineava a estrela de cinco pontas, sentiu a purulenta ferida, que já umedecia as ataduras. Jamais pensou que a marca daquele acordo cobraria esse preço. Não dessa maneira.
A chuva arrefeceu. Minutos depois, ouviu-se o barulho metálico dos ferrolhos da porta. A cela era iluminada por uma única tocha, quase morta, presa ao lado esquerdo da porta. Genaro sentou-se na poltrona puída — outra concessão do Velho. Devíamos tê-lo matado, maldito seja.
Genaro esperava por um soldado ou quem sabe, um alquimista. Mas quem entrou foi um Frade Marrom. O cajado, a túnica castanha e a imagem dourada da coroa cravejada estampada em frente ao coração não deixavam dúvidas.
O homem deu um passo à frente, fechou a porta e baixou o capuz. Genaro estreitou os olhos e o reconheceu. E aquilo não fazia sentido. O Pastor Simas devia estar morto. Todos eles deveriam estar mortos.
— Traidor — disse Genaro, arreganhando a boca coberta por espessa e desgrenhada barba.
O pastor sorriu.
— É o que eles imaginam — respondeu. — Não se engane, meu senhor. Venho para restabelecer sua vida.
O pastor avançou e parou uns dois metros à frente de Genaro, talvez pelo fedor que lhe invadia as narinas. Ato contínuo, baixou os olhos em direção ao peito do prisioneiro.
— Está pior a cada dia — disse Genaro.
O pastor assentiu com a cabeça, comprimindo as narinas.
— Como lhe disse, trago boas novas. Seu filho está chegando — disse o pastor. — Em menos de uma hora se juntará a nós.
— Qual deles?
— O primogênito.
Genaro perguntava por mera curiosidade. Quando perdeu a Coroa, todos, inclusive os filhos, já haviam fugido para o Norte. Mas claro que, se um dia algum deles se arriscasse a visitá-lo, seria Flamínio. Flamínio, o preferido e amantíssimo primogênito.
— Mande-o embora, não quero vê-lo — disse Genaro. — Nenhum dos três — finalizou, num suspiro que o levou ao engasgo e seguidas tossidas catarrentas.
O pastor esperou a crise passar. Genaro percebia seu olhar de repulsa e pena.
— Senhor, eles não têm culpa — disse o clérigo, enquanto improvisava um braseiro com as pedras de carvão que trouxera numa trouxa. — Buscaram o exílio para fugir da morte.
Com o rosto avermelhado, Genaro suspirou profundamente.
— Veja — disse o pastor — guardamos isso.
O Pastor Simas retirou do bolso interno do hábito marrom um conhecido anel. Genaro ofegou ao ver o sinete do Céu Estrelado que encimava o anel real, o mesmo céu que cobria os outrora aliados reinos do norte. O mesmo anel que Genaro adotara em seu curto reinado. O mesmo Céu que baniu a Coroa Cravejada, agora novamente ostentada pelo Velho.
— Pois guarde essa praga novamente — disse o Genaro, em sussurros.
— Não. Chegou a nossa hora.
Genaro levou a mão ao queixo e observou o Pastor Simas por longos segundos.
— A nobreza está novamente conosco, senhor. Velhos pactos estão sendo recosturados. — disse o pastor.
— Você é louco — respondeu Genaro. — O Velho tem o povo nas mãos. Eles o adoram como a um Deus.
O pastor não respondeu de imediato, mas ocupava-se em atiçar o braseiro improvisado com seu cajado de madeira escura.
— Todos esses anos em que esteve preso nós operamos nas sombras — disse o pastor agora acocorado em frente às brasas. — O Velho não deixará herdeiros.
Genaro, com o semblante fechado, virou o pescoço e encarou o pastor.
— É o único caminho — disse o pastor, pondo-se em pé: — renovar a Legítima Aliança.
Genaro levantou-se e virou de costas para o pastor, encarando o respingo da chuva no batente de pedra escura da janela. No passado, aquele vitorioso acordo havia proporcionado a glória. Mas a que preço, refletia. Sabia que agora estava arruinado.
— Não. Meu filho não passará por isso.
O pastor descansou as pálpebras por um instante. Permitiu-se um breve sorriso quando levou as duas mãos em concha por sobre o braseiro e constatou que o carvão já ardia por conta.
— Seu filho é jovem, cheio de vida, meu Senhor — disse o pastor, levantando-se. — É perfeito.
— Perfeito para quem, pastor?
— Para todos.
Um brilho faiscou nos olhos embutidos de Genaro quando alguém bateu à porta. Três batidas. Não se costumava bater à porta da cela de Genaro.
— Ele chegou — disse o pastor.
Genaro arregalou os olhos e recuou.
Desde que deixara as acomodações reais do Castelo Alto, Genaro vestia as mesmas roupas, agora em farrapos. O Pastor Simas retirou sua túnica marrom e entregou a Genaro. Ele vestiu a túnica enquanto Simas abria a porta para Flamínio.
Flamínio entrou na cela em silêncio. Não parecia um príncipe, vestido agora como um comerciante local. Demorou um pouco a reconhecer o pai. Assim que o fez, dirigiu-se até ele.
— Pare — disse Genaro.
Flamínio não parou e avançou para abraçar o pai. Não houve lágrimas.
— Pai. O que fizeram com você?
— O que se faz aos traidores, meu filho. — Disse Genaro, baixando a cabeça.
O pastor, que observava os dois, retirou da trouxa outro objeto metálico: o ferrete da estrela de cinco pontas. O mesmo que conheceu o peito de Genaro muitos anos antes.
— Chega! — Disse o pastor. — Temos pouco tempo até a troca da guarda.
Ganhando a atenção dos dois, Simas ordenou que Flamínio abrisse a camisa e desnudasse o peito.
— O ritual precisa ser cumprido agora.
Flamínio virou-se para o pastor, mas não obedeceu.
— Ritual? Vim para libertar meu pai — disse o jovem, agora percebendo o ferrete incandescente no braseiro. — É para esse único fim que estou aqui.
O pastor dirigiu-se ao moribundo:
— Genaro. Fale com o rapaz.
Genaro hesitou. O filho merecia passar pelo que ele passou? Pensou em avançar e abraçar o filho. E mandá-lo fugir, para longe e o mais rápido que pudesse. Era o que um bom pai faria. Flamínio o observava, esperando uma palavra. Genaro ensaiou avançar, mas não chegou a dar um passo.
— A renovação da Aliança é a cura para todas as feridas abertas — insistiu Simas, o ferrete em brasa na mão.
Flamínio hesitou.
— O reino será seu ao raiar da primeira estrela da manhã! — profetizou o pastor. — E seu pai ainda poderá viver.
Flamínio virou-se para o pai. Esperou.
Genaro baixou os olhos. Não disse nada.
Flamínio suspirou.
O pastor ensaiou um sorriso.
Flamínio baixou a cabeça e cerrou os olhos. A chuva apertou e seu barulho ensurdecia as paredes enegrecidas do cárcere. Por fim, abriu a própria casaca com mãos trêmulas, rasgou a camisa e ofereceu o peito nu ao pastor. Os olhos do religioso cintilaram refletindo o escarlate do ferro incandescente.
Lá fora, tormenta outra vez, um trovão estourou tão forte que quase encobriu o grito desumano que se ouviu por todo o Castelo Alto.
No mesmo instante, na câmara real, Rei Nino, o Velho abriu os olhos. O peito subiu num arquejo rápido e um suspiro estertoroso silenciou toda a corte.
Nos calabouços, o fedor da cela pútrida se misturava com a fumaça e cheiro de carne queimada. O Pastor Simas, pressagiando o início de um novo reinado, ajoelhou-se deixando cair o ferrete ainda em brasa, que tilintou ao repicar na pedra fria.
A ferida sobre o peito de Genaro já não pulsava.
E ele gargalhou como não fazia há muito tempo, um som rouco que subia das entranhas e se desfazia em tosse.
No chão, o filho caído a seus pés — encolhido. Os olhos esbugalhados, o corpo se contorcendo em um sorriso familiar. Um sorriso dividido entre a miséria da dor e o júbilo da glória.
Rei morto. Rei posto.